Difícil, não impossível

Desde 1989, quando as eleições passaram a ser realizadas em dois turnos, esta será a quarta vez que o eleitor leva para a segunda etapa a decisão sobre quem deve presidir o país. E até agora sempre quem venceu no primeiro round arrebatou com folga o segundo. Collor de Mello derrotou o então candidato Luiz Inácio Lula da Silva nos dois turnos. Depois de perder duas seguidas para Fernando Henrique Cardoso no primeiro turno, Lula venceu as duas fases da disputa com José Serra, em 2002, e com Geraldo Alckmin, em 2006. Portanto, o queijo e a faca estão nas mãos de Dilma Rousseff.

Viradas são raras e sempre surpreendentes. Dificílimas? Sim. Impossíveis? Não. Prova disso é que se repetem a cada eleição nas disputas estaduais.

Em 1994, ninguém imaginava a possibilidade de Eduardo Azeredo tornar-se governador de Minas depois de amargar uma derrota fragorosa no primeiro turno. Hélio Costa fechou a etapa inicial com 48,3% contra 27,2% do tucano, que, menos de 30 dias mais tarde, se elegeu para o Palácio da Liberdade com 17 pontos de frente. Essa é, possivelmente, a origem da comparação que fazem do ex-ministro peemedebista com um cavalo paraguaio, “bom de largada e ruim de chegada”. Dito que Costa voltou a comprovar agora. Largou disparado e terminou sem qualquer chance de alcançar o tucano Antônio Anastasia.

No mesmo ano, Cristovam Buarque também virou para cima de Antônio Bezerra no Distrito Federal. Perdeu no primeiro e levou no segundo turno.

Mas foi em 1998 que o país viu uma das mais vigorosas viradas. O governador Mario Covas, com 22,9%, quase foi derrotado no primeiro turno pela petista Marta Suplicy – ela com 22,5%. Passou raspando para disputar com Paulo Maluf, que vencera a primeira etapa com 32,2%. No final de outubro, Covas foi reeleito com 55,8% dos votos válidos. A façanha deveu-se a uma guinada total na campanha que induziu o eleitor a confrontar valores como seriedade, ética, honestidade, já identificados com o tucano, e a ausência deles em seu opositor, Paulo Maluf, uma reedição menos charmosa do “rouba mas faz” de Adhemar de Barros.

No mesmo ano, o petista Olívio Dutra, que ficara cabeça a cabeça na primeira etapa, ultrapassou Antônio Britto na segunda, elegendo-se governador do Rio Grande do Sul.

Em 2002, a virada espetacular coube ao peemebista Luiz Henrique, que avançou 11 pontos entre os turnos e se impôs sobre Esperidião Amin, até então tido como imbatível.

Quatro anos mais tarde, Roseana Sarney, que obtivera 47,2% na primeira rodada contra 34,3% de Jackson Lago, amargou a dor da virada. Com a posterior cassação de Lago, regressou ao governo do Maranhão e ficou perto de ver a história se repetir neste ano. Com uma das campanhas mais caras do país e apoio integral do presidente Lula, Roseana foi reeleita por um triz, com 50,08%.

Mas quem roubou a cena em 2006 foi Eduardo Campos (PSB). Nem deu bola para os reveses do primeiro turno quando foi derrotado por Bezerra Filho por mais de 6 pontos de diferença. Deu a volta por cima e venceu com 30 pontos de frente, algo inédito no país. Reeleito governador de Pernambuco no primeiro turno com mais de 80%, Campos realizou outra façanha: é o campeão absoluto de 2010.

Ainda baqueada e envolta pela areia dos castelos construídos por seu padrinho e por seu partido, que lhe garantiam vitória certa no último domingo, Dilma largou para o segundo turno com uma vantagem imensa. Com mais de 14 pontos percentuais de vantagem sobre o adversário, ela só não pode errar feio. Já José Serra, mesmo que consiga acertar tudo o tempo todo, depende não só de si, mas de eventuais tropeços da oponente.

Dilma e Serra ainda tateiam nas estratégias, não tiram os olhos das pesquisas diárias que recebem, assopram e mordem.

Mas, a medir pela primeira semana de campanha e pela estréia do programa eleitoral gratuito na última sexta-feira, tudo pode acontecer. Avessamente do que era de se esperar, o lado Dilma, vitorioso e favorito, se mostrou mais tenso, meio burocrático, um tanto parecido com o que os tucanos fizeram no primeiro turno. No campo oposto, Serra esbanjou entusiasmo, algo que não costuma ter com freqüência. Estava mais disposto, mais leve, como se o a faca e o queijo pudessem mudar de mãos.

Difícil? Sim. Impossível? Não.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 9/10/2010.

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