Choque de moralidade

Em 1989, primeira eleição direta para presidente da República depois de 25 anos, o candidato Mario Covas surpreendeu ao pregar um choque de capitalismo, essencial para se modernizar o Estado e dar fim à excessiva intervenção governamental nas áreas produtivas. Quem diria que passadas mais de duas décadas aquele pronunciamento ficaria cada dia mais atual. E não só porque voltou a ser necessário romper a estrutura do Estado esbanjador, doador de privilégios. Mas, fundamentalmente, pelo choque de moralidade que, embora estivesse lá com todos os pingos nos is, acabou ofuscado pelo alvoroço que o outro choque causou.

À época, Covas aturdiu a esquerda mais retrógada ao agredir o veio estatizante. Mas ninguém ousava divergir quanto aos princípios morais. Política era coisa que deveria ser feita por gente do bem. Mutreta era crime. Faltar com a verdade era imperdoável. Os desvios pertenciam a uma categoria execrável de políticos que cresceu e engordou com benesses do governo militar.

“Conciliar a política com a verdade”, frase aplaudidíssima do mesmo discurso, era questão de honra para todos aqueles que lutaram contra a opressão dos generais e contra os casuísmos do então presidente José Sarney, que conseguiu arrancar a fórceps um ano a mais de um mandato que só lhe pertencia porque a fatalidade abatera Tancredo Neves.

Não havia também, a não ser os filhotes da ditadura, quem discordasse de outro trecho tão atual do discurso de Covas: “Basta de gastar sem ter dinheiro. Basta de tanto subsídio, de tantos incentivos, de tantos privilégios sem justificativas ou utilidade comprovadas. Basta de empreguismo.”

Bons tempos aqueles. Estranhos tempos os de agora.

Nada parece estar no lugar. O presidente da República gasta muito mais do que devia, desperdiça a bonança e compromete o futuro, arromba o equilíbrio fiscal. Faz bondades eleitorais com o dinheiro que não lhe pertence.

Lula parece se divertir quando ultrapassa limites. Desafia e faz chacota dos tribunais Eleitoral e de Contas. Incha a máquina pública para acomodar apaniguados, é conivente com todo tipo de pecado dos amigos de ocasião. Não se intimida em inventar estatísticas para afirmar sua supremacia sobre os demais e em assumir como seus feitos alheios. Insiste em partidarizar o Estado e, declaradamente, põe seus interesses acima dos do país.

Seu objetivo confesso não é outro a não ser o de eleger a sua Dilma. Na verdade, eleger a si próprio com o codinome Dilma, como deixou claro na convenção do PT, no último domingo. E para isso vale tudo.

O que diria Covas, que contra a maior parte de seus pares conferiu apoio imediato a Lula no segundo turno contra Collor de Mello, hoje um aliado de primeira linha do presidente? Deve se remexer todo.

Os demais candidatos seguem quase na mesma balada da ilegalidade. Aproveitam-se da desculpa de que os malfeitos de Lula justificam os deles. Se os de Lula são perdoáveis, os nossos também são, imaginam. Uma lógica perversa de ganho imediato, mas que detona o pouco que ainda sobra de reserva moral ao país. Os programas partidários na TV – o do PV, propaganda explícita da candidata Marina Silva que ninguém contestou, e o do PSDB, com José Serra em primeiro plano – que o digam.

Mario Covas morreu em 2001. Pode ver o Brasil crescer a partir de um choque de capitalismo. E passa da hora de entender que sua pregação ia mais além. Que venha o choque de moralidade.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 20/6/2010.  

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