Canções doces, violões suaves

Minha maior paixão musical na primeira década dos anos 2000 foi e é Kate Wolf.

Kate Wolf é hoje um dos meus maiores ídolos na música. No mesmo patamar de Nara, Dylan, Joan Baez, Moustaki, Caetano, Cat Stevens/Yusuf, Paul McCartney, Noel, Caymmi, Luiz Gonzaga, Endrigo, Neil Young, Leonard Cohen, Serrat.

Quando fico em dúvida sobre o que ouvir, em geral pego um disco de Kate Wolf. Ela me acalma, me faz mais feliz.

Com a vantagem de que, sempre que toca uma música de Kate Wolf, Mary agradece pela escolha.

Pouca gente conhece Kate Wolf aqui. Na verdade, acho que pouca gente conhece Kate Wolf fora do circuito da folk music americana, em qualquer lugar do mundo.

Gostaria muito de escrever um bom texto sobre Kate Wolf. Penso nisso faz anos; pretendo fazer isso um dia. Mas, enquanto não faço, por preguiça, incompetência, ou porque a tarefa é grande demais, pensei em fazer um textinho de Geléia Geral sobre ela – um texto pequeno, descompromissado, só para dar uma dica, uma indicação.

Parece pretensioso, achar que dar uma dica aqui, num sitezinho/blog de uns 70 acessos diários, pode resultar em alguma coisa. Acho que, de fato, por um lado, é mesmo pretensioso. Mas, como o YouTube é mais ou menos como o deserto de Saara, tem tanta coisa quanto o Saara tem de grãos de areia, fico pensando que, se uma ou duas pessoas ficarem conhecendo Kate Wolf por causa deste post, já terei feito algum bem na vida.

Embora com multidecibilhões de grãos de areia, o YouTube não tem as canções que eu consideraria básicas, cartões de visita para quem não conhece Kate Wolf; não achei lá “Cornflower Blue”, nem “Katie and the Dreamtime Land”, a canção que Eric Bogle escreveu em homenagem a ela, em que faz a definição perfeita do som de Kate Wolf: sweet songs with soft guitars.

Mas achei uma pérola: uma apresentação ao vivo de Nanci Griffith, na época do lançamento de seu disco Other Voices, Other Rooms, de 1993 – um disco maravilhoso, em que ela tem como convidados absolutamente especiais Odetta, Chet Atkins, Alison Krauss, Arlo Guthrie, e, sim, Bob Dylan.

No filmete que está no YouTube, vemos Emmylou Harris subindo as escadas dos camarins até o palco enquanto Nanci Griffith diz o seguinte para público:

- “Esta canção foi escrita por uma mulher que inspirou um monte de gente a ser compositor, e quando ela morreu, tão prematuramente, em 1986, todos nós sentimos muito a falta dela, e na véspera do ano novo, conversando com Emmylou Harris sobre a música dela, fiquei inspirada em ir em frente e fazer este disco, começando com uma canção dela.”

E aí Nanci Griffith anuncia que vai cantar a canção de Kate Wolf com Emmylou Harris, e a ovação a Emmylou é tão imensa que a dona do espetáculo até sobe a voz para dizer que, na música que apresentarão em seguida, terão também o acompanhamento de duas pessoas que tocaram com Kate, uma delas a multi-instrumentista Nina Garbor – uma figuraça extraordinária, baixinha, atarracadinha, feinha, uma música e uma figura extraordinárias.

E aí temos a apresentação de “Across the Great Divide”. (A letra da canção vai abaixo neste post.) Essa apresentação é uma maravilha – a música é uma das dezenas de belas canções que Kate compôs, mas essa versão é especialmente fascinante, até porque a convidada especial de Nanci Griffith é muito mais famosa do que ela própria. Não conheço as coisas modernas, mas Nanci Griffith chamar Emmylou Harris para fazer a segunda voz é mais ou menos assim como Lady Gaga chamar Madonna, ou, exagerando, só para mostrar o espírito da coisa, Maria Gadu chamar Roberto Carlos.

 Tem que ser muito fera, uma cantora que chama outra muito mais famosa para fazer a segunda voz. Nanci Griffith fez isso, para apresentar a canção escrita por Kate Wolff.

Tenho a impressão de que, ao fazer isso, Nanci Griffith prestou a maior homenagem que seria possível fazer a Kate Wolf.

Tento fazer aqui uma pequena homenagem às duas, Nanci e Kate.

Não achei no YouTube a mesma música, “The Great Divide”, cantada por Kate. Kate morreu cedo demais, muito menos conhecida do que deveria. As imagens que foram feitas dela são quase amadoras.

 As imagens amadoras que Kate deixou são mais belas do qualquer coisa que se possa imaginar. Aí vai um exemplo.

E aí, depois de botar no ar este post um tanto ilógico, um tanto bêbado, um tanto sem sentido, me lembrei de um verso de Dylan que dói e espanta. É de uma canção de 1974, a época em que ele estava se separando de Sara. “In this time of fiberglass, I keep looking for a gem.”

Kate é exatamente isso: uma gema, uma pérola, nesta época de fibra de vidro.

Abril de 2010

Aí vai a letra de “Across the Great Divide”, de Kate Wolf:

 I’ve been walkin’ in my sleep
Countin’ troubles ‘stead of countin’ sheep
Where the years went I can’t say
I just turned around and they’ve gone away

I’ve been siftin’ through the layers
Of dusty books and faded papers
They tell a story I used to know
And it was one that happened so long ago

Chorus:
It’s gone away in yesterday
Now I find myself on the mountainside
Where the rivers change direction
Across the Great Divide

Now, I heard the owl a-callin’
Softly as the night was fallin’
With a question and I replied
But he’s gone across the borderline

Chorus

The finest hour that I have seen
Is the one that comes between
The edge of night and the break of day
It’s when the darkness rolls away

Chorus

8 Trackbacks

  1. [...] Um ponto extraordinário deste grande filme são as canções escolhidas para acompanhar, pontuar a narrativa. A trilha sonora original, de Aaron Zigman, é bastante boa – mas a escolha das músicas incidentais é espetacular. É um bando de gente nova; embora me considere razoavelmente informado sobre música pop, não conheço muitos dos intérpretes escolhidos para cantar ao fundo, durante a ação do filme – Don Ho, E.G.Daily, Priscilla Ann, Jimmy Scott, Jonah John, Greg Laswell. Sei quem são Regina Spektor, James Blunt, Jeff Buckley (este último, sei quem é porque gravou Dylan e Cohen), mas jamais tinha ouvido falar em Pete Yorn, Phil Xenidis, Edwina Hayes, Vega 4. De qualquer forma, todas as canções que aparecem no filme são muito mais para o folk que para o rock; não há pauleira alguma; é tudo “sweet songs and soft guitars”, a perfeita definição do escocês-tornado-australiano Eric Bogle em sua homenagem a Kate Wolf. [...]

  2. [...] This post was mentioned on Twitter by Sandra Barros Soares, Reinaldo Bierrenbach, Paulo Drummond, Elisabete Santana, Mary Zaidan and others. Mary Zaidan said: Canções doces, violões suaves – Homenagem a fantástica Kate Wolf (Ouçam os links) http://bit.ly/9nTW9D #botequimtuitajoaquim [...]

  3. [...] de Joan Baez, Kate Wolf, Eva Cassidy. Não tenho o menor interesse por Madonna, Lady Gaga, Amy [...]

  4. [...] as quais sabemos não haver resposta, mas que continuamos sempre fazendo, para usar a expressão de Kate Wolf. Vários personagens de Woody Allen foram – como o Larry dos Coen – levar suas dúvidas ao [...]

  5. [...] na música de raiz do interiorzão americano, o folk, o bluegrass, com gente da categoria de Emmylou Harris, Alison Krauss, Gillian Welch – vendeu tanto, mas tanto (cerca de 9 milhões de cópias), que [...]

  6. [...] aquele cheirinho maravilhoso, inigualáve, de terra, de poeira, depois de uma suave chuva, que as canções de Kate Wolf têm. Sweet songs and soft [...]

  7. [...] músicas de Kate Wolf têm cheiro de terra, de poeira de estrada de terra. São o contrário, por exemplo, das canções [...]

  8. [...] Canções doces, violoões suaves [...]

Postar um Comentário

O seu email nunca é publicado ou compartilhado. Os campos obrigatórios estão marcados com um *

*
*