Buena Vista Social Club

O capitalismo, que exclui 4 bilhões de seres humanos

de seus benefícios básicos, não é mesmo capaz de suportar

o fato de 11 milhões de habitantes de um país

pobre viverem com dignidade e se sentirem espelhados

no saudável e alegre Buena Vista Social Club”

(Frei Betto, Correio Braziliense, 4/12/09,”A blogueira Yoani e suas contradições”)

No meu imaginário cristão, freis são tipos bonachões, cheios de espiritualidade e humanidade, que cuidam carinhosamente das feridas espirituais dos seus semelhantes. Não sei se eles podem dar a extrema-unção, distribuir sacramentos, batizar ou casar os outros. Não sei, tampouco, diferenciá-los dos monges. Sei que os beneditinos, por exemplo, cantam lindos cantos gregorianos e fazem bolos, pães e doces que são um primor. Dos franciscanos, lembro de William de Baskerville, que junto com seu assistente Adso de Mekel , numa velha abadia italiana no século XIV, no memorável romance O Nome da Rosa, de Umberto Eco, procurava uma obra perdida de Aristóteles sobre a comédia, que, se encontrada, poderia ameaçar a hegemonia da Igreja sobre a terra.

É estranho imaginar que freis, bondosos freis, se dediquem de corpo e alma a enaltecer ditaduras onde os mais elementares direitos das pessoas são ignorados e desrespeitados – e que se dediquem, ainda por cima, a um trabalho de mistificação, como as antigas organizações de agitprop, que se especializavam em transformar sombrias formas de tirania em ensolaradas e mentirosas manhãs primaveris, onde a escassez e a falta de liberdade se transformavam, como que por encanto, em rios de leite e mel.

Frei Betto, que é um histórico militante de movimentos políticos, pastorais e gastronômicos, dedicou-se, no artigo de onde tirei a epígrafe que encima este texto, a desconstruir a blogueira cubana Yoani Sanchez, que é hoje talvez a mais famosa e a mais respeitada voz dissidente na enquadrada ilha dos irmãos Castro, acusando-a, inclusive, de mentir sobre a acusação recente que fez, de ter sido seqüestrada e espancada por esbirros da ditadura cubana. Cadê os hematomas? – pergunta freneticamente o bondoso frei, dizendo que nem no corpo da frágil Yoani nem do do seu marido Orlando (que de resto se chama Reinaldo) foram encontrados os sinais de violência.

Talvez, para dar vazão à sua insuspeitada vocação de médico legista, o bondoso frei pudesse solicitar licença aos irmãos Castro para poder examinar o corpo do encanador negro Orlando Zapata Tamayo, morto na terça-feira dia 23, depois de 85 dias de greve de fome, para atestar se em seu corpo havia ou não hematomas das torturas que sofreu desde a sua prisão, na Primavera Negra de 2003. Sua mãe disse: “Acredito que meu filho perdeu a vida num assassinato premeditado. Meu filho foi torturado durante todo o tempo em que esteve na prisão. Isso foi objeto de sofrimento para os parentes e objeto de tortura para esta família”.

Nem Orlando Zapata Tamayo nem os outros 49 presos políticos que pediram para conversar com o presidente do Brasil em visita a Cuba – e não foram atendidos – poderão compartilhar com os felizes 11 milhões de cubanos que não abandonaram seu florescente país dessa louca alegria que o bondoso frei lhes propõe compartilhar com o Buena Vista Social Club.

Ibrahim Ferrer, Compay Segundo, Rubens Rodriguez, Pio Leyva – todos estão no céu. Deixaram o inferno para ser administrado pelos irmãos Castro e defendido pelo bondoso frei.

Fevereiro de 2010

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