A mulher de Errol Flynn

Recebo aqui em Campinas e-mail do jornalista José Leal Paes, hoje morando em Belém do Pará após trabalhar durante bons anos no Estadão. Sua mensagem não poderia ser mais sucinta, apesar do enorme significado. Dizia, apenas: “Morreu ontem, no bairro do Guamá, a mulher do Errol Flynn”.

Devo contar que fui, imediatamente, coberto pelo, como diziam os parnasianos, diáfano manto da saudade. Pois tal figura, a “mulher do Errol Flynn”, marcou, de alguma forma, a vida de todos nós que fomos jovens na Capital do Pará ali pelo começo dos anos 50.

Raimunda Bastos, esse era o nome dela. Morena bonita, francamente bonita, sósia da bela Teresa Collor. Mas a nossa beldade não era nenhuma socialite, antes pelo contrário. Exercia, com eficiência e alta competência, aquela que chamam de “a mais antiga das profissões”. E, afinal, mesmo sendo a gracinha que era, não teria entrado para a história se não tivesse se transformado na “mulher do Errol Flynn”.

Vamos voltar um pouco no tempo, para a época da Segunda Guerra Mundial. Naqueles duros anos, o astro americano de tantos filmes de aventura estava no auge da forma física, da fama e da grana. Tinha um iate, e, com ele, apesar do conflito que se desenrolava na Europa, vivia percorrendo as águas do Caribe. Quem sabe se após alguns uísques a mais, ele e sua tripulação resolveram subir o Amazonas. Assim, tomaram o rumo da foz do grande rio.

Pois muito bem; o ator do Robin Hood dirigido por Michael Curtiz, acho que em l938, chegou a Belém a bordo do seu iate ali por 1941, antes de os americanos entrarem na guerra, o que só ocorreu após o ataque japonês a Pearl Harbor. Vinha acompanhado de certo staff, e até algumas gurias; só que, ancorado ao largo do porto da cidade, o ator resolveu, certa noite, visitar a zona do meretrício. Mandou para a melhor pensão do chamado “quadrilátero do pecado” um grupo precursor, a fim de organizar tudo. Tanto que, quando chegou, de porre, todas as garotas da casa, fechada especialmente, permaneciam colocadas de costas para a parede da sala, a fim de que o grande astro apontasse aquela com quem ficaria. Dito e feito, a escolhida foi Raimunda Bastos, que ele levou para o quarto e lá ficou até a noite do dia seguinte. Não se sabe se devido ao cansaço de tal esforço, a subida do rio Amazonas acabou abortada. E os gringos retornaram para o Caribe.

De outra parte, a grande verdade é que o efeito das muitas horas de amor com o famoso galã transformaram completamente a vida da moça. Tanto que quando a conheci, muito tempo depois, já nos anos 50, ela permanecia na mesma pensão, e fora batizada como “a mulher do Errol Flynn”. Por causa disso só atendia a seleta freguesia. Muitos vinham dos Estados vizinhos para, digamos, merecer seus favores.

Pintando, afinal, a decadência, os tempos ficaram mais duros, porém a moça não perdeu a classe. Tanto que certa noite vi a reação dela diante de um marinheiro bêbado que queria arrastá-la para a cama:

– Tá pensando o que, idiota? Tu achas que essa bainha aqui – batia a mão no meio das pernas – onde o Robin Hood enfiou a espada vai se passar para um tipo da tua laia?

Grande Raimundinha, “a mulher do Errol Flynn”. Morreu rondando os 80 e lá vai fumaça, na casa comprada com os dólares que o ator lhe deu, nas duas lendárias noites. Saudades eternas.

Esta crônica foi originalmente publicada no Correio Popular

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