Seu Rona

Quarenta anos depois, me peguei pensando que aprendi coisas importantes com o Seu Rona.

Vojtech Rona. Nasceu na Hungria, veio para o Brasil na época da Guerra, creio, e se radicou em Curitiba. Era uma pessoa educadíssima, de imensa cultura geral; tinha lido muito, gostava de música erudita e era um grande entendido do assunto. Quando o conheci, em 1967, tinha 17 anos, e ele me parecia muito velho, como as pessoas que já passaram dos 50 parecem aos jovens. Na verdade, devia ter só uns 60, no máximo 65. Baixo, atarracadinho, sempre vestido com roupa social mesmo dentro de casa, cabelos branquinhos, olhos claros espertos, vivos, atrás dos óculos grossos. Precisava de um datilógrafo-secretário-office-boy, e eu, curso de datilografia quase concluído, me apresentei.

(Quase concluído é literal. Entrei para uma escola de datilografia no Centro de Curitiba e tive as aulas referentes às letras e acentos, as três fileiras inferiores das quatro do teclado; na semana em que ia aprender a bater a quarta fileira de teclas, a do alto, dos números, apareceu uma oportunidade de emprego, no ICBEU, Instituto Cultural Brasil-Estados Unidos, e larguei a escola de datilografia, a primeira das várias escolas que larguei na vida. Nos 40 anos seguintes, nunca soube bater os números com todos os dedos.)

Seu Rona mexia com importação, tinha uma representação comercial de alguma firma de fora. Mas os negócios tinham diminuído com o passar do tempo e, por economia, tinha fechado o escritório e passado a trabalhar em casa; trabalhava muito pouco, quase como um hobby. Eu levava coisas ao Correio, pagava contas, cuidava da correspondência comercial, mas a maior parte do meu trabalho consistia em datilografar infindáveis cartas pessoais do Seu Rona para os dois filhos e a irmã, espalhados por Brasília, São Paulo e Rio.

Ele ditava as cartas num grande gravador, equipado com um mecanismo de pausa acionável pelo pé; eu ia ouvindo diante da máquina de escrever, dando as pausas, eventualmente voltando um pouco a fita. Às vezes ele ditava diretamente para mim um complemento, um PS. A máquina de escrever ficava continuamente com cartas à família; terminada uma, ele já começava outra.

Era fascinante o mundo, antes que o DDD virasse rotina, muitíssimo antes da internet.

De que tanto falava Seu Rona nas cartas longas e contínuas? Coisas do seu dia-a-dia, das atividades de sua mulher, dos ralos negócios, que penso que enfeitava um pouco para que não parecessem tão ralos; perguntava dos netos, contava do que lia, fazia considerações sobre o que ouvia nas respostas que eles enviavam; filosofava um pouco.

Eram várias folhas bem finas, com papel carbono; quatro, se não me engano – uma para cada um dos três destinatários e a quarta para seu arquivo. E tinha que ser em espaço um, para aproveitar ao máximo o papel.

Ele aproveitava cada pequeno pedaço de papel; escrevia anotações, rascunhos, às vezes bilhetes para mim com instruções sobre o que fazer no dia, com uma letra miudinha, em cantos de papéis já usados. Até os saquinhos de papel que vinham da padaria ele reaproveitava.

Os brasileiros – dizia o Seu Rona, em um português extremamente correto, com forte sotaque – são perdulários, gastam demais. Nunca passaram por uma guerra. Quem passou pelas privações de uma guerra aprende a economizar tudo, não desperdiçar nada.

Outro dia, nos shows do Live Earth, exatos 40 anos depois dos ensinamentos do Seu Rona, uma das mensagens ecologicamente corretas dos organizadores era sobre o desperdício de papel; imprima pouco, diziam eles; e, quando for imprimir, utilize as duas faces do papel. Hoje em dia isso começa a ser moda.

Há tempos faço isso. Sempre economizei papel – e tudo o mais que é possível. Lição da minha mãe, certamente. Mas sem dúvida lição do Seu Rona.  

O gosto, o respeito, a admiração por cartas, isso também é lição do Seu Rona.

Ele morava numa casa no Alto da Rua XV – casa boa, sólida, confortável mas sem qualquer sinal de luxo, em bairro bom, sólido, confortável mas, naquela época, pelo menos, sem sinais aparentes de luxo. Eu ficava confinado ao escritório, um cômodo amplo, abarrotado de livros e caixas e caixas de papel, mas houve vezes em que ele me levou para ouvir um trecho ou outro de algum disco erudito no som dele, um som 200 vezes melhor do que a humilde vitrolinha Philips que tínhamos na casa do Guabirotuba. Me lembro de ter ficado fascinado com a qualidade do som. Um dia tive a ousadia de levar um LP da Odetta cantando Dylan para a casa do Seu Rona e pedir para ouvir uma faixa no som dele; foi um dos grandes prazeres que tive na vida.

O LP, importado, não era meu; era do ICBEU, que tinha uma discoteca e emprestava para os alunos ou ex-alunos. Eu até já tinha alguns LPs, mas nenhum importado; o primeiro de todos, comprei com o dinheiro do primeiro salário do primeiro serviço, de atendimento na secretaria do ICBEU. Tenho o disco até hoje, claro, com o nome e a data: Sérgio 6/66. É o See What Tomorrow Brings, do Peter, Paul and Mary. Em 41 anos, alarguei muito meu gosto musical, mas me mantive extremamente fiel ao folk americano. 

Seu Rona seguramente nunca tinha ouvido falar em Odetta ou em Bob Dylan, mas ouviu, ao meu lado. Não me lembro do que ele comentou, mas duvido que tenha gostado. Não era, em absoluto, a praia dele.

A memória da gente é fascinante. Foi só agora, escrevendo aqui, que me lembrei de uma coisa que tinha sumido completamente da minha memória: tirei uns sarros com a empregada do Seu Rona. Era uma moça bem jovem, não bonita, mas atraente, cheia, peitos fartos, coxas grossas, saia curta embaixo do avental branco, e fogosa, bem fogosa. Não trepamos, e acho que nunca nos vimos fora da casa dele – só demos uns amassos na cozinha, na área de serviço, quando acontecia de meu patrão e a patroa dela não estarem por perto. Não me lembro o nome dela, nem como a coisa começou; começou pela curiosidade e pelo ardor natural da idade, minha e dela, coisa típica de adolescentes; durou algumas semanas, acabou por falta de interesse ou empenho.

Na sala do meu apartamento, hoje, onde há um som que faria inveja ao Seu Rona, tenho um boneco, um fantoche feito em Praga, trazido pela Mary; assim que bati o olho nele, chamei-o de Seu Rona. Praga não é Budapeste, claro, mas é ali pertinho. E eu queria homenageá-lo de alguma forma.

Trabalhei lá vários meses, não sei exatamente quantos. Não houve registro em carteira – eu só iria tirar carteira de trabalho ao chegar a São Paulo, no início de 1968. Depois da mudança para São Paulo, fui muitas vezes a Curitiba, mas nunca me ocorreu procurar o Seu Rona, nem sequer dar um telefonema para ele. Não me passou pela cabeça que aquele senhor idoso tivesse desenvolvido qualquer tipo de afeto pelo fedelho que trabalhou um tempo para ele – e eu na época simplesmente não percebi que a convivência tivesse ido além de uma passageira relação de trabalho; para mim, aquilo tinha sido uma pequena parte da minha experiência de dois anos no Paraná, entre a Belo Horizonte em que crescei e a São Paulo que escolhi para viver, nada mais.

Algum tempo mais tarde, meu irmão Geraldo, que continuou morando em Curitiba, se encontrou por acaso com Seu Rona e ouviu uma frase que jamais, jamais saiu da minha cabeça.

Seu irmão – disse o Seu Rona para o Geraldo – é um rapaz inteligente, mas ingrato.

Este texto – como está dito lá em cima – foi escrito em julho de 2007. Se algum dia escrever minhas memórias (segundo Jane Fonda, todas as pessoas deveriam escrever sobre sua vida, “tornar-se um arqueólogo, peneirando a areia e a terra para descobrir quem você é”, e dar de presente para os filhos e parentes), este seria um capítulo delas.

Colocar textos na internet é uma coisa absolutamente espantosa. A gente sabe disso, é claro. Mesmo assim, estamos sujeitos a surpresas fantásticas, como  ler as mensagens que vão logo aí abaixo, que recebi em janeiro de 2010. É emocionante.

5 Comentários para “Seu Rona”

  1. Sr. Sergio Vaz.
    Meu nome é Roberto Marcos Rona e sou o neto mais velho do seu Rona. Li com lágrimas nos olhos as suas poucas mas, importantes linhas, sobre o meu avô. Não lhe conheço mas fiquei muito curioso sobre o que faz e onde vive hoje.
    Temos mais ou menos a mesma idade e pena que não devemos morar na mesma cidade. Meu email é marcosrona@uol.com.br e terei um imenso prazer em trocar experiências DE VIDA aprendidas com o seu Rona.
    Grande Abraço do Rona.

  2. Olá Sérgio,
    Sou a mais nova dos 5 netos do Seu Rona (em 1967 eu estava nascendo!)
    Fiquei muito emocionada ao ler seu texto sobre meu avô! Foi realmente uma surpresa descobrir esse seu registro que descreve um pouco da essência desse homem com quem, tenho certeza, muita gente deve ter aprendido alguma lição!
    Um abraço,
    Karin Beatriz Rona

  3. Sérgio,
    Como você pode ver a familia Rona adorou o texto. Sou a segunda neta e também fui as lágrimas com seu texto. Muito pela lembranças do Seu Rona mas certamente também por sua forma de escrever sobre ele…
    Meu pai tem até hoje as tais cartas que “você” escreveu!!! Que bom sabermos de alguém a quem nosso avó trouxe tantas lembranças. Sucesso!
    Obrigada
    Cristina Helena Rona

  4. Pois é meu caro,
    Deu pra notar que o Sr. Rona recebia de volta todo o interesse que ele tentava repartir com a familia. Que bacana… que estorinha comovente (principalmete junto com os comentários).
    Lemos nos dois juntos (eu e a maezinha) e ela se emocionou. Eu também…

    quando é que vai sair o livro de memórias??????????

    Bjos

    Marcio e Lucia

  5. Sérgio, que maravilha de relato! Deu pra enxergar a bela figura do seu Rona, você aos 17 anos e a tentativa, frustrada, de ouvir folk americano na casa do “erodito”. Ah, e o sarro com a moça?! Quem diria; sensacional!
    Do sobrinho curitiboca, André Vaz

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