O jovem Francisco

Quando esteve há pouco (este texto é de 1987) na pequena e bela cidade mineira de Tiradentes, gravando para o Fantástico o videoclip de sua nova música “O Velho Francisco”, Chico Buarque de Hollanda foi abordado por um velho senhor que fez questão de apertar sua mão e de anunciar, orgulhoso: “Eu sou comunista”. Chico conta essa história rindo muito, mas, na realidade, o que ele mais quer é se libertar dessa aura, dessa imagem de porta-voz da resistência à ditadura, de um ativista político que lutou contra o governo militar, contra a censura, pela anistia, pelas causas populares. Não que se arrependa, é óbvio, de sua história de lutas. Mas ele gostaria que sua arte – ele diz “meu trabalho” – fosse encarado sem mistura de estações, sem informações paralelas cruzando. “Gostaria de estar despojado de qualquer imagem anterior”, deseja.

Ao lançar, esta semana (em novembro de 1987), o disco Francisco – o 15° LP solo como cantor, e o 25º’ de sua carreira de 22 anos -, Chico prepara-se para voltar ao palco depois de 12 anos de ausência. Desde sua temporada em 1975 no Canecão ao lado de Maria Bethania, ele não faz um show com carreira regular, um show só dele mesmo. Nestes 12 anos, participou de diversos shows coletivos, no Brasil, em Cuba, na Nicarágua, na França, na Suíça – mas sempre para apresentar apenas duas ou três músicas; aqui, foram em geral shows de sentido político, como os organizados pelo Centro Brasil Democrático no Morumbi, em São Paulo, no Beira-Rio, em Porto Alegre, ou no Riocentro, no Rio de Janeiro; e depois vieram os comícios políticos, pelas diretas ou por candidatos da esquerda. Eram acontecimentos, ele diz hoje, em que a preocupação artística ficava em segundo plano. Essa fase acabou. O encerramento oficial está marcado para o próximo dia 6 de janeiro (de 1988), com a estréia de seu novo show no Canecão do Rio de Janeiro, de onde seguirá em março para o Palace, em São Paulo. “Quero chegar ali e cantar, e gostaria que as pessoas ouvissem com ouvidos novos.”

No show, Chico pretende mostrar para ouvidos novos músicas velhas – desde “A Rita”, de seu LP de estréia, em 1966 – até as mais novas, que estão no LP Francisco e que ele suspeita desde já que não tocarão muito no rádio (“As rádios resistem muito a tocar música brasileira”, diz). Nesse disco – que foi saudado por parte da imprensa como a volta de Chico Buarque depois de cinco anos de silêncio, embora ele tenha lançado um LP solo em 1984 e dois LPs com composições suas cantadas por outros intérpretes em 1985 -, Chico reconhece haver uma característica diferente de muitos dos anteriores. Traz músicas feitas exclusivamente para o próprio disco, e não criadas por encomenda para a trilha de um filme ou de uma peça. Apenas uma faixa, “Bancarrota Blues”, é da peça O Corsário do Rei. Todas as outras nove são criações recentes, e inéditas (quando fez seu LP Vida, em 1980, que ele hoje considera “sombrio”, teve que regravar várias canções suas que já haviam sido registradas por outros cantores).

O disco traz outra característica absolutamente inédita: tem três capas diferentes. O artista gráfico Noguchi usou três fotos diferentes, e Chico gostou da idéia. Hoje acha que poderiam até ser mais capas, poderiam ser 20, 50. Um terço da tiragem do LP será vendido com cada uma das três diferentes capas, aleatoriamente. Não é de se estranhar o ineditismo: um ano antes de os Beatles revolucionarem a história das capas de discos colocando as letras de Sgt. Papper’s na contracapa, Chico já havia lançado seu primeiro disco com as letras, prática absolutamente incomum na época.

No sábado, 7 (de novembro de 1987), um Chico Buarque de Hollanda de 43 anos que aparenta no máximo 35, magro, saudável, sem barriga – há mais de dois anos só bebe vinho, em geral branco e moderadissimamente, às vezes passa um mês inteiro sem tomar um copo; faz planos de não beber absolutamente nada durante a próxima temporada do show -, conseguiu conciliar a visita de Afinal com sua rotina de todos os sábados. Por volta de 4 horas da tarde, dirigiu seu Gol de placas absolutamente enferrujadas – nunca a menos de 80 por hora – de sua casa no alto da Gávea até o campo do Polytheama, no Recreio dos Bandeirantes, meia hora ao Sul. O jogo contra o Nacional (20 minutos em cada tempo com 10 de intervalo) valia pelo Torneio de uma Nota Só que inclui seis outros times: Cachaça, Mambembe, Pelotudo, Raça e Simpatia, Trem da Alegria e Vento Forte. Terminou em 1 a 1, Chico correu muito, deu bons passes mas não fez gol, e o resultado, como analisou Ruy, do MPB4, “não espelhou fielmente o andamento da partida ‘. Estavam no campo do Polytheama os atletas Evandro Mesquita (que joga no time), Raimundo Fagner, Luiz Gonzaga Jr., Vinicius Cantuaria e Aquiles, do MPB4; o público não-pagante (não se cobra entrada) era formado basicamente por gente humilde da região ou por aficionados por futebol, mas incluía gente conhecida como Nelson Rodrigues Filho. Depois de um banho no vestiário do clube, vestindo de novo a mesma roupa com que recebeu Afinal às 2 horas da tarde em sua casa – camiseta azul-escuro sem mangas, calça clara, sandálias tipo havaianas -, Chico rumou, a 100 por hora, para o restaurante onde almojanta todo início da noite de sábado com os amigos do Polytheama, o Florentino, no Leblon. De lá passou rapidamente em casa, onde Luisa, de 12 anos, a caçula de suas três filhas, recebia dezenas de amigas para uma festa de Dia das Bruxas, e em seguida foi para a casa do amigo e produtor Vinicius França, na Lagoa, onde reuniu-se com os jornalistas de Afinal, o escritor Antônio Torres e o amigo Tarso de Castro, em volta do gravador, e falou de política, mau jornalismo, drogas, seu pai, suas filhas, desânimo nacional, saúde, e sua música.

Afinal – O Nelson Rodrigues dizia que você era a única unanimidade nacional. Todo mundo gostava do Chico Buarque, que era sinônimo de 100% de aprovação em termos de música. Depois você começou a escrever peças teatrais, a se expor com suas posições políticas e vieram as críticas. Como você viu tudo isso?

Chico – Em primeiro lugar, quando o Nelson Rodrigues fez a frase, ela não era, não chegava a ser um elogio. Primeiro porque não existe unanimidade nacional. Alias, o próprio Nelson disse que toda a unanimidade é burra. Mas isso foi uma história que rolou no tempo da Banda, é a história da Banda. De lá pra cá muita coisa aconteceu. E essa história de me malharem depois da Ópera do Malandro e tal não confere direito com a realidade, porque muito antes, nos fins dos anos 60, eu já estava descartado por uma faixa ponderável. Havia quase uma unanimidade contra, né? Você não se lembra porque não foi em você que doeu. Porque no tempo em que eu morava na Itália, no início dos anos 70, não era fácil. Era muito difícil até trabalhar, por diversos motivos. Não havia nada parecido com unanimidade. Pelo contrário, havia uma forte corrente contra o meu trabalho.

Afinal – Eram críticas contra o seu trabalho, ou críticas porque era um momento político conturbado no País?

Chico – É claro que eu não agradava a quem estava no poder. Mas não é isso o que eu estou falando. Estou falando é da crítica especializada. Em 1968, 1969, eu já era inteiramente superado para eles. Essas coisas são muito cíclicas. Você vai, depois aparece de novo, daí você é o maior ou é uma porcaria. Isso vai e vem, sobe e desce, há muito tempo. Eu já estou acostumado com isso, já não é novidade nenhuma para mim.

Afinal – Isso que você está dizendo coincide com o tropicalismo, aquele negócio de “ah, o Chico está ultrapassado”?

Chico – Isso começou na época do tropicalismo, quando havia uma coisa de colocarem uma rivalidade, uma disputa. Mas depois disso, algum tempo, eu não estava aqui, morava na Itália. Rapaz, quando eu voltei, e tinha aquele negócio de Lux Jornal, que mandava os recortes que falavam de você… Rapaz, não era brincadeira. Eu recebia aquele negócio e tinha que queimar, porque me fazia o maior mal. Era uma derrubação violenta.

Afinal – Que tipo de coisa tinha?

Chico – Tudo, tudo. Acabado, eu voltei para o Brasil como um artista terminado, isso em 1970, 1971…

Afinal – Mas a lembrança é de que você era endeusado, nessa época.

Chico – Não, a crítica em geral, a opinião impressa era muito desfavorável. Meus discos eram mal-recebidos, assim que saíam. A crítica era um pouco apressada. Depois que eu fiz o show no Canecão, em 1971, é que começou a haver um certo reconhecimento.

Afinal – Você tinha acabado de lançar o Construção?

Chico – Tinha lançado o Construção, aí saiu aquela crítica que não deixava pedra sobre pedra, “Chico Buarque com sua musiquinha de sempre… ” Depois eles foram descobrir, inventaram que Construção era muito bom e aí começou o negócio a favor, um movimento a favor. Depois começou uma onda contra, mais outra a favor, outra contra… E aí é bom porque você pode detectar onde estão os motivos, as origens dessas ondas. Muita coisa você não pode detectar, muitas coisas permanecem misteriosas. Agora acontece também que essa onda, quando ela passa, traz muita coisa atrás. Você vê que uma notinha de jornal, uma notícia de coluna social do Rio de Janeiro, é reproduzida no Brasil inteiro. E a gente que mora aqui sabe a quantidade de besteira e de mentira e de distorção que sai numa coluna social no Rio de Janeiro, evidentemente de má vontade, de desonestidade. Eu não tenho a menor ilusão de que o Jornal do Brasil, O Globo ou colunistas sociais vão gostar de mim. Não gostam e eu acho ótimo que não gostem. Mas isso assume às vezes um ar de campanha, de noticiazinha plantada…

Afinal – Chico, você está olhando para caras que fazem imprensa e que são também malhadores da imprensa. Qual é a opinião que você tem da imprensa?

Chico – A minha opinião da chamada grande imprensa brasileira não é muito favorável. Evidentemente que eu não gosto e que também não precisam gostar de mim. Não é em tom de queixa, não. Eu estava constatando é que esse tipo de posição (da imprensa) interfere até no meu trabalho como artista. Como cidadão não concordo com a linha editorial de nenhum jornal ou revista brasileira. Não tem um que me satisfaça, nenhum. Eu não posso estar de acordo com a linha editorial do Jornal do Brasil, O Globo, da Veja, da IstoÉ, ou da Afinal. Não posso, a gente pensa diferente. Só que eu pretendo trabalhar, sou um artista e vivo da minha arte, meu disco etc. Estou lançando um disco ou fazendo um show numa casa noturna e tal, e estou querendo ser julgado por esse trabalho. Entendo que existam pessoas que não gostem, e existem mesmo, mas o que incomoda é essa carga negativa que vai influir na divulgação desse meu trabalho. Já enfrentei isso algumas outras vezes. Eu sei que as coisas vêm muito a reboque das outras e tal. E quando começa essa onda da reprodução de noticiazinhas, que é uma mediocridade, uma falta de originalidade, você sabe que ela vai percorrer o Brasil. E até acabar a onda você tem que ficar quietinho, quietinho, porque não adianta a gente ficar se queixando.

Afinal – Você separa, por exemplo, o cara que vai te entrevistar da publicação para a qual ele trabalha?

Chico – Eu não tenho um prazer especial em dar entrevistas. Eu só dou entrevistas para os amigos, mas acontece muitas vezes de dar entrevistas para amigos ou pessoas de confiança e a coisa depois ser manipulada, ser editada de uma forma desagradável. É chato isso, mas também não adianta você brigar, porque você sabe que não tem futuro essa briga. A última palavra é sempre do jornal. Já percebi isso várias vezes, uma coisa a favor, outra coisa contra. E vira moda ser a favor, e vira moda ser contra. Eu acho que quando vira moda ser a favor, dizem: ” Mas por que que tem que ser a favor?” Então, o sujeito bate no peito e diz: “Eu tenho a coragem de ser contra”. Aí todos os outros viram e vira uma fila de gente corajosa, todo mundo falando mal. E você vê isso muito claramente ao longo dos anos. São 22 anos de estrada: nada me surpreende nesse sentido e nada me ofende mais tanto, também.

Afinal – Nesses momentos em que você sentiu o movimento contrário, as críticas mais pesadas, você sentiu também alguma influência disso sobre o seu público?

Chico – É difícil sentir, se eu tivesse assim um contato direto maior…

Afinal – Mas influi ou não na venda do disco, no seu trabalho, na sua obra?

Chico – Se eu dissesse que essas coisas não me incomodam, seria mais elegante e bem mais inteligente, porque iria dar um desprazer grande a quem tem um certo prazer em destruir as coisas, o trabalho dos outros. Mas essas coisas me incomodam sim e atrapalham até na continuidade do meu trabalho. De repente uma carga muito violenta contra o teu trabalho… Eu sou uma pessoa insegura com relação ao meu trabalho o tempo todo. Eu sou crítico também do meu trabalho, demoro a resolver, tiro isso, ponho aquilo. E quando há uma carga muito forte, aquilo mexe comigo. Mas se você identificar bem, a origem ideológica, ou pessoal, tem muito disso, quer dizer, isso é um jornalismo provinciano. De repente você tem uma desavença pessoal com o fulano e não sabe de onde é que parte tal intriga. Aí, se você identificar direito, você supera com a maior facilidade. Mas se você não identifica, você fica um pouco mais perturbado. Você pode ficar paranóico, achando que está havendo um complô. Aí também é uma loucura. Você pode também questionar o seu trabalho e achar que ele vale a pena. Não estou querendo que aplaudam tudo o que eu faço, não. O que estou dizendo é que existe, muitas vezes, uma coisa manipulada, uma coisa dirigida.

Afinal – Há realmente esse poder todo da crítica sobre o produto cultural?

Chico – A crítica em si até é uma coisa menor, porque o que acontece hoje é que temos poucos críticos profissionais de música. Aliás, o crítico de música não faz crítica de música, ele faz só da letra. Publica um pedaço da letra e fala dela. Se o jornal não gosta do teu trabalho você está ferrado, porque o crítico pode ser até independente, publicar uma matéria isenta, mas a maneira como isso é colocado dentro do jornal, como é editado, muitas vezes não é.

Afinal – Tem algum crítico que você respeita no País?

Chico – Há críticos sérios. O Tárik de Souza é um crítico sério, a gente pode não concordar com isso ou aquilo, mas é um crítico honesto. Tem outros que eu não lembro o nome, estou falando dos que eu leio mais constantemente. O que acontece é que tem gente que exerce a crítica esporadicameme, que não é crítico de música, que é escalado para escrever sobre determinado disco. Mas eu quero sair dessa coisa queixosa, dessa coisa pessoal, de malhar fulano ou sicrano. Eu acho que não é por aí. O crítico de música popular muitas vezes funciona como o elo de uma cadeia que inclui gravadora, rádio, televisão e imprensa escrita. Isso tudo anda junto.

Afinal – É o problema da execução da música no rádio. o tal do jabá?

Chico – O problema do jabá, a corrupção que existe aí dentro… Isso é mais grave do que uma crítica negativa num jornal, muito mais crítico. Eu não vejo um jornal tomar a questão do jabá, por exemplo. Eu acho que não é a mim que vocês têm de entrevistar para ir fundo nesse assunto. Os jornais também são proprietários de rádios e televisões, então é uma questão que não interessa aos jornais tocar. As gravadoras multinacionais são anunciantes dos jornais, então no fim das contas…

Afinal – Você está dizendo que existe uma coisa conspiratória.

Chico – Você acha? E a culpa é de quem? Do crítico da Folha? Eu acho que a crítica da Folha é de menor importância para a vendagem do disco, o êxito do disco, o sucesso do disco. O que eu acho mais grave é a política cultural que a Folha ou outro jornal possa ter como uma constante em relação à música, ao cinema ou ao teatro brasileiro. Quer dizer, uma posição destrutiva, destrutiva mesmo, de dar destaque e abrir grande espaço só para esculhambar a cultura brasileira.

Afinal – E você acha que existe uma central para comprar isso?

Chico – Sem dúvida nenhuma que existe dinheiro para comprar uma página inteira de O Globo de hoje para lançar um produto qualquer. Eu não estou falando de jornalista, estou falando de jornalismo. Estou falando que tem críticos honestos, tem críticos desonestos, tem críticos esporádicos, tem críticos volantes, qualquer coisa, tem críticos subservientes que escrevem o que o editor mandar, tem críticos independentes. Mas o certo é que existe em alguns setores da imprensa uma posição sistemática de esculhambar tudo o que é brasileiro.

Afinal – É conspiratório, então?

Chico – Eu não tenho a menor dúvida de que existe isso, uma coligação para acabar com o Brasil, para desmoralizar a cultura brasileira. Eu acho que desde 1964 vocês conhecem isso.

Afinal – Mas ao nível de um negócio, assim de conspiração, muito ao gosto dos adeptos da teoria conspiratória da história?

Chico – Eu acho que existem aí – ou eu estou sendo paranóico – grandes interesses em jogo. Basta você ligar a televisão e ver a programação comercial. Então sempre existiu e está existindo cada vez mais. E quem sai perdendo com isso? Quem não tem dinheiro para financiar a mídia. E a imprensa é cúmplice disso, é evidente, porque ela tem interesses. Eu comprei uma briga com a PolyGram. A imprensa vai ficar do meu lado ou do lado da PolyGram. O que você acha’?

Afinal – Eu não sei. Você está dizendo que a imprensa fica sempre do lado do empresário.. .

Chico – Mas é evidente que fica. Eu acho que quando começa uma campanha em cima do Tom Jobim por causa da Coca-Cola a briga não é com a Coca-Cola nunca, a briga é com o Tom Jobim. Se o Tom Jobim está vendendo a música dele para a Coca-Cola, como disseram nos jornais, e se a Coca-Cola é ruim, então os jornais não deviam pegar anúncio da Coca-Cola. Deviam denunciar que em Bonsucesso morreu um cara talvez por causa da Coca-Cola, que havia Coca-Cola contaminada. Mas, não. Isso abafaram. Ninguém fala mal da Coca-Cola e todo o mundo fala mal do Tom Jobim. Por que? Se Tom Jobim começar a anunciar no Jornal do Brasil, na Afinal, na Veja, em O Globo, vão dizer que o Tom Jobim ficou riquíssimo com o dinheiro da Coca-Cola e começou a colocar anúncio. Aí talvez parem de falar mal do Tom Jobim, entende? Eu acho que há uma briga um pouco inglória, porque Tom Jobim nunca vai ganhar da Coca-Cola, e artista brasileiro nenhum vai ganhar.

Afinal – Nós sabemos bem como é que funcionam essas coisas.

Chico – Eu estou falando da imprensa, não estou falando dos jornalistas. Estou falando que existe muitas vezes uma campanha difamatória, e não é queixa pessoal, que eu não tenho mesmo. Agora, muitas vezes eu vejo jornais, por achar que não-sei-o-quê vende, dedicarem os seus espaços para esculhambar a cultura brasileira, que já não anda bem das pernas, porque está difícil. Você sabe lá o que é fazer um filme no Brasil? Eu não sou cineasta, mas tenho amigos cineastas. O Carvana, por exemplo, teve que parar um filme dele agora no meio. É muito difícil mesmo fazer arte no Brasil. Mas quando você consegue fazer alguma coisa por que não tratá-la com um pouco mais de respeito, quando se sabe que outras que não valem nada são colocadas nas alturas? Pode ter até uma crítica ruim, com o bonequinho sempre dormindo, mas o espaço que se vai dar etc. e tal é uma coisa doida. Você não vai me dizer que é de graça…

Afinal – O erro básico do jornalista brasileiro é ser leviano, pelo menos é o que acham todos os que estão te entrevistando neste momento.

Chico – Muitas vezes é leviano, é preguiçoso, etc. e tal. Agora, muitas vezes ele é muito mal pago, não tem tempo e não tem condições de trabalho. Eu não quero fazer a defesa do jornalista agora – mesmo porque não estou aqui atacando os jornalistas, estou atacando os jornais, os donos das empresas. Senão eu não estaria aqui dando entrevista para os meus amigos, que são jornalistas da maior responsabilidade, que eu respeito muito. Tem jornalistas fantásticos neste país e o jornalismo que se faz é uma merda, entende? Então eu acho que alguma coisa está errada e o jornalismo independente não está dando certo, porque não conseguiu unir a qualidade à quantidade.

Afinal – Você está falando dos jornais como empresa, não é? Eu falei disso: jornalismo como empresa.

Chico – Então eu sublinhei o que você (Tarso de Castro) falou, porque pouco tempo antes de você entrar queriam que eu falasse sobre os críticos. Então eu não acho que você tenha razão e nem motivo para ter vergonha de ser jornalista.

Tarso – Eu não tenho vergonha não. Eu não gosto de jornalista, essa é que é a verdade.

Chico – Eu acho que a diferença em tudo isso é que é mais fácil atacar o empregado do que o patrão. Aliás eu não ouço muita gente falar mal do Roberto Marinho, nem mesmo no Jornal do Brasil, porque o Jornal do Brasil quando briga com os outros briga por baixo, não briga por cima. Eu acho, e já falei disso, que há jornalistas subservientes, aqueles que estão lá para fazer o que o patrão mandar, como há jornalistas independentes. Agora, o que estou discutindo, é que em termos de cultura não entramos nem no primeiro caderno.

Afinal – Mudando um pouco de rumo: esse seu novo disco tem um certo toque de melancolia e eu parei pra pensar sobre isso. Se essa melancolia é uma coisa inerente à própria arte, se a beleza da arte encerra uma certa melancolia, principalmente a música, ou se essa melancolia tem algo a ver com a lágrima. O que você acha disso?

Chico – Não sei dizer exatamente e nem acho que o disco seja especialmente melancólico. Mas eu acho que a música brasileira tem um quê de melancólica, sempre.

Afinal – Você quer dizer que a música latino-americana tem isso?

Chico – Teria que pensar um pouco. Eu não sei, não, porque na música latino-americana os ritmos todos puxam para cima. Agora, no caso da música brasileira, o próprio samba, que é um ritmo negro e tal, ele carrega uma melancolia maior do que a rumba cubana, do que a música jamaicana. Eu teria que pensar um pouquinho para responder, porque o meu disco, inclusive, procura fugir um pouco do tom melancólico. Eu estou querendo desviar um pouquinho, mas quero terminar essa coisa da imprensa aí, inclusive para passar a limpo essa história. Faço questão de deixar clara a minha posição: eu não gosto da imprensa, tenho meus motivos para não gostar e acho que, ideologicamente, está inteiramente afastada a possibilidade de uma reconciliação. E entendo que isso não afeta profundamente o meu trabalho, nem a repercussão do meu trabalho junto ao público. Realmente não afeta. Então, não é o caso de eu ficar me queixando: “Ah, estou assim porque a imprensa não sei o quê…” Mas quando eu vejo, por exemplo, o caso do cinema brasileiro, que depende da situação econômica do Pais, que sofre hoje muito mais do que a música… O cinema está quase inviável no País, além de ser bombardeado, está quase falido. Daqui a pouco nós não vamos mais ter cinema brasileiro, com essa mentalidade colonizada de gostar de tudo que vem de fora..

Afinal – Mas o cinema brasileiro é de qualidade?

Chico – É claro que é de qualidade, e o teatro brasileiro também é de qualidade.

Afinal – Mas você tem resposta do público. Porque que o cinema brasileiro não tem?

Chico – Também tem, também tem. Vá ver a sabotagem que existe por parte das distribuidoras. Vai me dizer que não existe interesse aí? Quando um filme brasileiro está bem em cartaz eles tiram, porque é mais barato um pacote de filmes estrangeiros, porcaria. Então, o que eu quero dizer é o seguinte: de todas as artes, o cinema é a que mais depende de público. Agora então está ferrada, não pode aumentar o ingresso porque o povão não tem dinheiro. O povo está sem dinheiro e vai ver o quê? Vai ver aquilo que tem condição de anunciar a cada cinco minutos, em intervalo nobre da TV Globo. Para o teatro brasileiro teve uma época em que a Rede Globo dava um negócio chamado “janela”, dava assim de graça, como um anúncio. Suspenderam isso porque houve uma briga com o sindicato e cortaram esse favor que a Rede Globo fazia ao teatro brasileiro

Afinal – Você está falando de coisas que parecem ser uma defesa do nacionalismo, que dão a idéia de um discurso que todos nós fizemos a uma certa altura, de entusiastas defensores da cultura nacional, dos valores brasileiros. Não há um certo ranço protecionista nessa colocação?

Chico – É, no fim vai acabar soando como isso, né? Mas realmente há um desprestígio tão grande por tudo o que se faz no Brasil…

Afinal – Mas essa história toda começou com o Estado autoritário, interferindo em tudo…

Chico – E a cultura ficou fora do projeto deles, né? Deixaram continuar prosperando? Não, o cinema como a indústria farmacêutica brasileira acabou. E por que a indústria do disco iria continuar? Existia, não existia? Mas acabou. Eu era contratado, inclusive meus três primeiros LPs foram gravados numa gravadora nacional. Hoje, existe uma, endividada, que é a Continental, uma só. Cinema, então, nem pensar, eles estão acabando com tudo. Aí, daqui a dez anos, você vai me dizer se eu tenho razão. Acabou. Quando acabar tudo, ninguém mais vai poder gravar seu disco. E quando ninguém mais puder gravar um disco, quando ninguém mais puder fazer um filme, quando ninguém mais escrever uma peça, porque não vai ser montada, a cultura brasileira vai ser uma merda mesmo, porque não vai mais poder existir. E eu não estou falando que o Estado vai ter que socorrer.

Afinal – Qual é a saída então?

Chico – Eu acho que o Estado que está aí é incompetente, é ilegítimo porque, em primeiro lugar, não tem nenhum respaldo popular. Em segundo lugar, as leis que protegiam o cinema brasileiro e a música brasileira são anteriores a esse Estado que está aí, e não são respeitadas. Se o Estado não tem força, se não tem moral para enfrentar a Autolatina e nem empresário nenhum, vai enfrentar quem? Vai enfrentar a Rede Globo? Não vai enfrentar e nem vai obrigar a Globo a apresentar a porcentagem de música brasileira, que é uma lei do tempo de Jânio Quadros. A lei de proteção ao cinema brasileiro, por exemplo: os Estados Unidos se protegem contra o calçado brasileiro; por que a gente não faz o mesmo em relação ao cinema americano?

Afinal – Então qual é a saída, Chico? Porque nós tivemos o Estado intervindo de forma violenta e agora você vê, por exemplo, a Autolatina desafiando o Estado. Esse negócio deixa a gente meio perplexo, né?

Chico – Olha, o Estado nesse tempo todo de ditadura e tal só interferiu contra a cultura brasileira, só contra. Então vamos dizer que, no mínimo, acabe a censura, acabe a repressão aos artistas criadores. Não queremos que atrapalhe mais.

Afinal – Quer dizer que você é contra a intervenção do Estado?

Chico – Quer dizer, leis de proteção de mercado, o mínimo, isso você tem que ter evidentemente. Você tem que proteger os pequenos porque senão vale o que tem mais dinheiro. Se valer o poder da grana, abrem as reservas indígenas para catar minerais e cortar aquela madeira toda. Acaba tudo. Acaba o índio, acaba a música, acaba o cinema, acaba o teatro. Então, é claro que o Estado tem que proteger, porque aí nós somos os mais fracos. Qualquer multinacional é mais forte do que qualquer gravadora brasileira, qualquer multinacional de cinema é mais forte do que qualquer cineasta brasileiro que arrisca numa produção caseira, porque é assim que se faz cinema no Brasil. Você vê a Embrafilme: está falida.

Afinal – Você acha que o artista tem que ser livre para criar…

Chico – É evidente que tem que ser livre para criar…

Afinal – Tudo bem. E as outras pessoas que não sejam artistas?

Chico – Também têm que ser livres para trabalhar. Eu sou a favor da liberdade.

Afinal – Você acha que estamos correndo o risco de cair no marasmo cultural?

Chico – Se a produção cultural brasileira continuar assim tão maltratada, vai para o marasmo mesmo.

Afinal – Mas hoje há marasmo cultural, na sua opinião?

Chico – Não, hoje não há ainda marasmo cultural porque existe gente nova fazendo coisas. Existe uma porção de gente nova com vontade de fazer as coisas e muitas vezes sem poder fazer, porque não há condições econômicas, por exemplo, de se montar uma peça de teatro. Existem inúmeras pessoas de qualidade e talento para fazer tudo: representar, cantar, dançar com entusiasmo, e sua oportunidade é mínima. Ou se tem a janela da Rede Globo ou então, elas não aparecem. Tem muita coisa boa, sem dúvida.

Afinal – Você não acha que estamos sofrendo a pior coisa que um país pode sofrer, que é a total desesperança que advém do fracasso das diretas, do fracasso do Tancredo, do fracasso do Cruzado, do fracasso do governo civil? Não é este o nosso problema?

Chico – Esse é o problema. Ninguém gosta mais deste país. E quem gosta – porque a gente fica fazendo música porque gosta, porque a gente se alimenta deste país – vai cantar no deserto daqui a pouco. Se continuar assim, porque aqui só prospera quem não gosta deste país, quem está aqui para explorar, cobrar os juros da dívida e não sei do quê, ou pra botar uma grana e tirar fora, ou pra roubar e botar no banco da Suíça.

Afinal – E você acredita neste país?

Chico – Eu tenho que acreditar. Eu acho que cada disco meu que sai, ou de qualquer um – tem uma safra de discos agora, tem o meu, o do Caetano, o do Djavan, o disco do Milton – dá uma força danada, porque é uma proeza conseguir ainda fazer isso. E estou falando de gente assim, para não falar do pessoal mais novo, do pessoal do rock, que conheço menos mas que está aí trabalhando, fazendo coisas. Esse pessoal do rock, que diziam há algum tempo que estava acabando com a MPB, eles próprios já estão sendo alijados da programação de rádio, porque agora existe a música brega.

Afinal – O brasileiro está num baixo astral tão grande que está difícil segurar, não é mesmo?

Chico – Eu estou sentindo um clima de fascismo nas ruas, no trânsito, na cara das pessoas, como eu nunca tinha visto neste país. Essa prepotência de quem tem alguma coisa, de quem é dono de alguma coisa, que tem um Mercedes do ano, é lógico que também está ligada a isso, a essa violência que a gente está vendo. A classe média que está se salvando com medo de cair de status; a classe média alta com medo de virar classe média baixa, e a classe media baixa com medo de se proletarizar. Isso tudo é uma doença terrível. Olha, me desculpem, mas uma parcela considerável da classe média que partiu para as diretas-já é a mesma que 15 anos antes botava “Brasil, Ame-o ou Deixe-o” no vidro traseiro do carro. Não é que a classe média é uma bosta, é que existe uma maioria silenciosa que realmente é facilmente manobrada. Eu já disse isso em 70 e poucos, quando estive na Argentina, quando a classe média do “Brasil, Ame-o ou Deixe-o”, “Brasil, Ame-o ou Morra” ia a Buenos Aires para comprar coisas na Calle Florida. Eu estive lá mais de uma vez e via brasileiros lotando as churrascarias e ficavam lá cantando “Eu te amo, meu Brasil, eu te amo”. Eu tinha nesse momento uma vergonha profunda de ser brasileiro, maior do que a vergonha que o Tarso falou.

Afinal – Aqui no Brasil há uma dificuldade muito grande de as pessoas se assumirem: ninguém é de direita, todo mundo é de centro, de esquerda, ou de centro-esquerda.

Chico – Não se diz que é de direita nem nos cadernos culturais dos jornais, porque existem pensamentos de direita bastante sólidos. Na França, por exemplo, as pessoas que escrevem no Figaro, que é um jornal sabidamente conservador, não têm vergonha de ser de direita. A nova direita tem seus ideólogos, essas coisas são repetidas aqui, só que ninguém diz: “Somos de direita”. Por que? “Nós somos modernos”, respondem. Ou então dizem: “Não existe direita, não existe esquerda”, ou uma coisa assim.

Afinal – Você não acha que neste momento a direita está perdendo a vergonha de se manifestar?

Chico – Você está falando de quem’? Da UDR da UBE, ou alguma coisa assim?

Afinal – De todos os segmentos. Essa vergonha de ser de direita está desaparecendo. Não te parece isso não?

Chico – Ninguém diz que é de direita. Diz o Amaral Neto e aí o outro que vem atrás diz: “Eu sou de esquerda, mas concordo com o Amaral Neto”. Eu prefiro o Amaral Neto ao que vai atrás e diz isso.

Afinal – O fato é que a esquerda se retraiu e a direita se assanhou, e tudo bem. E perfeitamente explicável, porque nós tivemos aí um carnaval incrível de incompetência da esquerda, e você inclusive foi um dos caras que se preocupou muito com isso, porque achava que as coisas não estavam bem postas, que precisavam mudar. Acontece que o poder permaneceu com a direita e nós ficamos a ver navios, porque nós fizemos a campanha das diretas, fizemos aquela coisa toda, elegemos o Tancredo e o Tancredo morreu, e estamos com Sarney, nesse clima de descrédito, desconfiança, de lassidão. Qual é a saída?

Chico – Não sei. Estou muito cansado para saber qual é a saída. Realmente estou cansado, já falei bastante. Eu estou falando sozinho e realmente é muito desagradável, com as pessoas ao meu redor, ficar falando de política. É uma conversa cansativa, ninguém quer saber e então eu me sinto um pouco cansado também de falar de um assunto que não vai interessar a ninguém.

Afinal – Pronto, mudou. Acabou esse papo. Ô Chico, como é que os “enta” estão tratando você. Como está sendo a vida depois dos 40?

Chico – Bem. Estou bem disposto. Eu acho que me dei conta de que tinha 40 anos. Eu acho que mudou porque você não se dá conta antes da tua idade. Então nesse sentido eu acho positivo, o balanço final é positivo.

Afinal – Você está muito jovial. Isso tem a ver com a saúde?

Chico – Bom, é claro. Você se cuida um pouco mais, você briga contra a tua idade, quer correr mais do que você pode e começa a enfrentar probleminhas aqui e ali, que antes você não tinha.

Afinal – Achaques?

Chico – Não, eu não me queixo muito da minha saúde, não. Sou uma pessoa bastante saudável. Só que você tem que se cuidar um pouco mais.

Afinal – Esses cuidados de que você fala, por exemplo, você não bebe mais uísque?

Chico – Não.

Afinal – Você parou de beber?

Chico – Estou tomando vinho, moderadamente. Hoje fui obrigado a tomar mais do que a minha média. Não que eu tenha ordenado a mim mesmo “eu vou parar de beber”. Eu acho que o meu próprio organismo começou a querer menos algumas coisas. Ou o meu organismo está muito saudável ou ele falou “chega”. Não dá, simplesmente eu estou enjoado de uísque. Não gosto nem de cheirar, não gosto e não quero tomar. Ou você acha que estou fazendo algum sacrifício para não tomar uísque? Às vezes passo três meses sem beber coisa nenhuma. Estou pensando em ficar sem beber para fazer o show, coisa que eu nunca fiz. Sempre tem aquela coisa, aquele rito de que você não pode entrar de cara limpa, careta.

Afinal – Você já experimentou drogas?

Chico – Já experimentei, sim. Maconha, cocaína, mescalina, ácido e haxixe…

Afinal – Para fazer shows?

Chico – Não, para fazer show você está maluco. Para fazer show não dá, não dá aliás para nada. Eu não sou um drogueiro. Sou contra as drogas, eu as conheço e te digo que não vale a pena. Pelo menos no meu caso não vale a pena mesmo, até porque se bobear eu sou uma pessoa que, por temperamento, é capaz até de ir longe em qualquer viagem dessas, até pelo desafio, pelo gosto da aventura.

Afinal – Nesse seu último disco tem uma faixa em que parece que você está falando sobre suas três filhas, que está com ciúmes, que está muito preocupado com elas. É isso mesmo?

Chico – Não, eu não digo isso. Nessa música eu digo que tenho ciúme, que sou possessivo e que tudo isso é uma grande besteira. Que é inútil eu ser ciumento, que é inútil eu ser possessivo, que é inútil eu dizer que são minhas, são minhas, são minhas, porque elas não são, elas já vão embora e essa sensação de perda é sem parar. Isso faz parte também dos “enta”. A gente começa a perder muita coisa…

Afinal – E por falar nisso, os “enta” estão mesmo te tratando bem?

Chico – Então, você não vai conseguir que eu desminta isso. Estão porque eu não estou me sentindo mal. Antes já me senti até mais angustiado, porque está muito ligado também a essa coisa, para ser sincero, ao processo de criação. Quando você está fazendo as coisas você se sente muito melhor. Qualquer artista, eu acho, passa por isso, passa pela crise de criação. Nessas horas eu fico angustiado.

Torres – Eu te acompanho há muitos anos, praticamente desde o começo, e noto uma coisa: os artistas de um modo geral, vá lá, eu também sou um deles, são levados muito para o individualismo, o narcisismo, acho até que eles precisam dessa carga narcisista… Mas no seu caso, eu observo que você – desculpe falar isso de corpo presente – é um brasileiro voltado para a solidariedade. É impressionante esse seu traço, você tem uma consciência das pessoas como pouca gente neste país tem. Você sabe quem está fazendo tudo no Brasil, você acompanha tudo, o que não é um traço muito comum nas pessoas do seu nível, da sua fama.

Chico – Eu receio que tenha que desmascarar um pouco isso porque eu não concordo com tudo. Em primeiro lugar, como eu já falei. vem o ato da criação. Então é um ato muito isolado, muito individual e narcisista também. E eu preciso dele, porque sem ele eu sou incapaz de ser solidário, eu só até incapaz de pensar no outro. Quer dizer, a minha atividade fora da criação, fora da música e tal, é uma conseqüência desse trabalho. Eu preciso estar bem comigo para poder ir além. Agora eu não vejo isso como uma exclusividade minha. Eu acho que os artistas brasileiros são extremamente atentos ao que se passa em volta deles, muito atentos a tudo, cada um a sua maneira, que eu vejo até com muita inveja. Aí eu falo em inveja e a revista põe que eu tenho inveja dos outros, como se a inveja fosse um sentimento horroroso. A inveja é ruim quando é aquela inveja paralisante. Eu tenho inveja no sentido de dizer: “Poxa, eu gostaria de fazer isso ou aquilo”. Então não é paralisante, é mobilizante. Existe uma gama imensa de artistas que prestam atenção em tudo, que têm uma noção do que é o povo brasileiro e isso você percebe na obra deles. O Caetano Veloso saca tudo o que está se passando no Brasil e ele expressa isso na sua música e não precisa dizer também num comício. João Gilberto pode ficar trancado na cobertura dele, pode ser pessoalmente até egoísta. Mas está sacando tudo. Você vê Guimarães Rosa e vê a vida dele. Ele não teve uma atividade pública especialmente solidária. O sujeito está lá dentro do quarto dele, um músico maníaco, um diplomata, e está sacando pela buzina que está lá fora. Não precisa sair aí e ver a face de cada pessoa; ou ver a beleza que existe no interior de Minas. Vim de lá agora e vi a beleza que existe, uma coisa tão rica, tão bonita e tão necessitada de ser protegida. Então as pessoas manifestam isso assim numa sala. Eu vejo um show do Gilberto Gil, como eu vi agora em Cuba, e vejo que sacação, não só do Brasil como também do negro, que daí vai para a Nigéria, para a Jamaica. Ele mostrou aquilo em Cuba e o pessoal sem entender uma palavra do que ele dizia, mas sacando tudo. Porque aquilo é o espelho de uma sacacão pessoal de vida. Ele está transmitindo numa língua que o povo não está entendendo e entende, porque é profunda, é sincera. O artista é isso.

Afinal – Quando você sacou que seu pai era genial? Ou você ainda não sacou isso?

Chico – É meio difícil falar de pai…

Afinal – Mas você leu a obra de seu pai?

Chico – Tive dificuldade Resisti muito. Engraçado, isso é uma coisa que não dá nem para explicar, mas resisti muito. Até que uma vez eu cheguei pra ele e disse: “Eu estou lendo Raízes do Brasil”. E ele disse: “Leia Visão do Paraíso, que é muito melhor, eu gosto muito mais”. Mas é muito difícil falar sobre isso que você está me pedindo. Eu não tenho essa isenção para julgar meu pai e dizer que meu pai era genial. Eu sou incapaz de falar isso, porque há tantos sentimentos misturados aí. Eu o li, com dificuldade inclusive, depois de ele ter morrido. Porque eu parava em determinado parágrafo e ficava pensando nele, entende? Ficava na ligação, no meu contato pessoal com ele, e essas coisas se misturam quando leio seus livros.

Afinal – Como é que era o seu relacionamento com o seu pai?

Chico – Genial! (risos) Quando eu era pequeno meu pai era um cara que metia medo, porque ele trabalhava muito e eu fazia muito barulho e ele não gostava de barulho e tal. Ele ficou meu camarada, meu amigo, já na minha adolescência, quando comecei a dar sinal de independência, porque meu pai não tinha ligação com criança, não era do jeito dele. Ficou próximo, ficou meu camarada, até no sentido de cumplicidade, quando eu virei homem…

Afinal – Mas nunca puxou o saco assim: “Ah, meu filho!”

Chico – Não, mas de jeito nenhum. Imagina meu pai me puxar o saco (risos). Imagina, e meu pai ia ficar incomodado ou deslumbrado com o meu sucesso, mas de jeito nenhum. Ele devia achar meio engraçado, devia ficar às vezes um pouco orgulhoso disso ou daquilo. Ele não dava muito palpite na verdade. Às vezes, quando tomava um pilequinho, ele deixava escapar alguma coisa, mas ele nunca interferiu não.

Afinal – Você acha que seu pai cresceu ainda mais tendo um filho como você?

Chico – Eu não posso falar isso para você. Quer saber o que meu pai achava de mim? É isso? Pois bem, dessas coisas não se falava em casa, tem coisas que não se diz. Ficava quieto, mas havia aquela cumplicidade, aquela coisa. Agora tem uma coisa gozada: eu fui criado com muitas pessoas me perguntando se eu era filho do Aurélio. Eu fiquei com horror dessa história de ser filho do Aurélio o tempo todo “Você é filho do dicionário?” (risos) Daí um dia eu dei uma entrevista pro Pasquim e falei que não tinha nada com o Aurélio, que ele nem era meu parente…Depois um tio meu me esclareceu que realmente ele é meu parente, um parentesco distante, mas é. Mas tem gente que acha que eu sou filho mesmo é do Aurélio, e não do Sérgio Buarque de Holanda. E o chato é que o Aurélio sempre vendeu mais livros do que meu pai (risos). Há algum tempo eu estava fazendo um programa na Rede Manchete e aí passa o Adolpho Bloch e diz: “Ah, Chico Buarque, como é que vai seu pai? Eu gosto muito dele, eu o vejo sempre lá na Academia”. (risos). Meu pai já tinha morrido e eu fiquei assim sem clima para dizer. Quer dizer, o Adolpho Bloch pensa que eu sou filho do Aurélio.

Afinal – Se você sempre insistiu em dizer que seu pai era Sérgio Buarque de Holanda é porque você já tinha sacado que tinha um pai genial. Ou não?

Chico – Não vou entrar por aí. Talvez saia pela tangente. Vou dizer o seguinte: é um pouco difícil julgar meu pai, o intelectual com essa frieza, com essa distância. Vou dizer que eu fui tendo aos poucos, e cada vez mais, uma consciência da dignidade dele como ser humano. Aí é uma coisa que me marcou mais que qualquer outra, é uma coisa que, aí sim, me marcou para sempre. Quer dizer: eu sou filho de Sergio Buarque de Holanda e eu tenho que fazer jus a esse nome.

Afinal – Mudando, outra vez, de rumo: Chico, e o público jovem?

Chico – Eu não acredito absolutamente que haja alguma incompatibilidade entre o que estou falando e o ouvido dos jovens. E evidente que eu não pretendo falar na linguagem dos jovens, não pretendo “empatotar” com os jovens. Mas também não acho que a minha conversa, o meu discurso, que a minha música seja uma música que não interessa a eles. Eu espero que o pessoal novo vá assistir ao meu show, gente que nunca me viu no palco. Tem que ter gente nova, porque eu não vou fazer show só para os quarentões. Eu preferia não ter imagem nenhuma e chegar e apresentar o meu trabalho pra gente que não o conhece, sem nenhum preconceito, sem nenhum juízo formado. Gostaria muito que fosse assim. É claro que estou sonhando. Tem uma garotada que tem uma informação meio estratificada. Essa coisa toda da participação política, isso tudo pesa muito na minha imagem. Não pesa no sentido positivo, não; pelo contrário. Eu gostaria de estar despojado de qualquer imagem anterior. Não que eu me arrependa do que eu fiz, não é nada disso. Mas eu gostaria de chegar ali e cantar o que eles não conhecem, ou porque é novo, ou porque é velho, e que as pessoas ouvissem aquilo com ouvidos novos, sem nenhum tipo de informação paralela cruzando, que eu acho que só vai atrapalhar. Eu estou entrando ali de cara limpa; eu vou fazer um show como na verdade não faço há uns dez, 15 anos. Um show só meu, eu ali mostrando o meu trabalho, desde talvez A Rita até o meu último disco, um trabalho que não é maior nem menor, mas é separado dessa imagem criada pela mídia. Você cria uma imagem, depois que você cria essa imagem, se você não brigar com ela, você tá ferrado. Você tem que estar sempre quebrando a tua imagem, porque senão você se acomoda. A imagem é mais forte do que você. Se você bobear; você se deixa devorar por ela.

Afinal – Você tem idéia do que você se transformou na cultura brasileira?

Chico – Não, porque esse é o tipo de balanço de vida que eu não faço, balanço de obra. Eu não escuto nem mesmo as minhas musicas. Às vezes, na rua, alguém grita: “Ô, Chicão, Ô Chicão, tudo certo”? É um chofer de ônibus, que provavelmente não tem o meu disco e sabe vagamente quem eu sou. E isso é uma coisa boa. Mas essa coisa de “aaahhh”, de “aue” no meio da rua nunca me seduziu.

Afinal – Chico, por que você não virou um bundão? (risos).

Chico – Aí vai voltar ao meu pai, de novo; vai voltar aos valores que eu conheci. Quando eu falo do meu pai eu vou sem querer para Carlos Drummond, eu vou para Antonio Candido, vou para Manoel Bandeira, vou para Mario de Andrade, e vou para Vinicius de Moraes, e vou para Tom Jobim. Vou para os meus amigos, para as pessoas que eu respeito, e vou para o meu pai, que eu não posso decepcionar.

Esta entrevista foi publicada no nº 168 da revista Afinal, de 17 de novembro de 1987.

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