Dylan Volume 2 – O press-release do disco Infidels

Infidels – infiéis, pagãos; o gentio, os que não acreditam. O título do novo (em 1983) LP de Bob Dylan, o seu 25º álbum oficial (não contando as coletâneas, as participações especiais, nem os quase cem discos piratas feitos à revelia do artista e da gravadora), sugere que o compositor, depois de ter sido o porta-voz de uma geração que contestava os valores do sistema, depois de ter sido o mais brilhante retratista de uma década de ilusões desfeitas, depois de ter surpreendido e chocado sucessivamente os admiradores da música folk, do rock e do country, continua hoje sendo basicamente aquilo que revelou ser no final da década de 70: o cristão convertido, o servidor de Cristo, a propriedade de Jesus, o difusor da fé.

Infidels seria, então, mais um disco dedicado ao cristianismo? Eis o que disse o artista, durante a gravação do LP: “Religião é uma palavra suja. Não significa absolutamente nada. A Coca-Cola é uma religião. O petróleo e o aço são religiões. Em nome da religião, as pessoas têm sido estupradas, assassinadas e pervertidas. A religião de hoje é a servidão de amanhã”.

E, no entanto, Bob Dylan afirma, em “Man of Peace”, um rock denso, forte, marcante, do novo LP: “Ele é um grande humanitário, ele é um grande filantropo. Ele sabe exatamente onde tocar você, meu bem, e onde você gosta de ser beijada. Ele lhe abraça, e você pode sentir o terno toque da Besta. Sabe, às vezes Satã aparece como um homem de paz”.

Também durante a gravação do novo LP (que durou três meses, no meio deste ano, 1983, em Nova York – dois meses nas sessões de gravação, e mais um para a mixagem), perguntaram a Dylan, o autor de algumas das mais contundentes e importantes canções políticas que já foram gravadas, se haveria alguma canção política no disco. A resposta: “Eu não escrevo canções políticas. Canções políticas são slogans. Eu sequer sei o que é política. É como uma serpente com a cauda na boca – um carrossel de pecado”.

E, no entanto, Bob Dylan canta, em “Union Sundown”, outro dos rocks de Infidels: “A democracia não rege o mundo, é bom você meter isso na cabeça. Este mundo é regido pela violência.” E, em “Sweetheart like you”, uma balada mais lenta, irônica e pessimista, ele diz: “Dizem que o patriotismo é o último refúgio que um covarde procura. Roube um pouco, e eles jogam você na cadeia; roube muito, e eles fazem de você um rei.”

Afinal, Dylan voltou a ser um compositor político? Ou continua – como o próprio título do seu novo LP sugere – um cristão catequizador? O músico que mais foi interpretado, discutido e dissecado neste século, em dezenas de livros, milhares de teses, reportagens e artigos, mostra-se – como aliás sempre se mostrou – irritado com tudo isso. Cáustico, ele afirmou ao repórter do semanário inglês “New Musical Express” que o entrevistou durante a gravação de Infidels: “As pessoas querem saber onde eu estou, qual é a minha, porque não sabem onde elas estão, qual é a delas”.

E acrescentou: “O sentido da música é elevar o espírito e inspirar. Quem se interessa em saber qual é a de Bob Dylan deve ouvir “Shot of Love” (a faixa título de seu penúltimo LP, de agosto de 1981). É minha canção mais perfeita. Ela define como eu me sinto espiritualmente, musicalmente, romanticamente, seja lá o que for. Ninguém precisa ficar conjeturando se eu estou de um jeito ou de outro. Não estou escondendo nada. Está tudo lá naquela música”.

“Shot of Love”, uma canção com forte influência do gospel e de outras formas de expressão da música negra norte-americana – como, aliás, era a maioria das obras de Dylan no seu período cristão – enumera uma série de coisas das quais ele diz não precisar – drogas, por exemplo. E reafirma diversas vezes: “I need a shot of Love”. Shot, como se sabe, significa tiro (a música foi composta poucos meses após John Lennon haver sido fuzilado com quatro tiros); significa também dose, ou injeção.

Infidels, assim, aparece como uma clara continuação do LP anterior, Shot of Love. Este havia sido lançado após os dois álbuns basicamente cristãos do compositor, Slow Train Coming, de 1979, e Saved, de 1980; ainda incluía faixas abertamente religiosas, como “Dead Man, dead man” e “Property of Jesus”, mas trazia várias outras que falavam de amor, romance, esperança, vida, costumes, morte.

Em Infidels, apenas uma das oito faixas (a já citada “Man of peace” faz referência explícita à religião.

Mais ainda que em Shot of Love, musicalmente Dylan se aproxima de uma grande simplicidade. Abandonando os instrumentos de sopro que caracterizam seus LPs do final da década passada, e mesmo os corais em estilo gospel, desta vez ele optou por um LP feito basicamente com guitarras, bateria, baixo, percussão, poucos teclados – e a gaita de boca que é a sua marca registrada desde o LP de estréia, de 1962. Com a participação de Mark Knopfler, guitarrista e líder do conjunto inglês Dire Straits (que colaborou com o compositor na produção do LP, e já havia trabalhado com ele em Slow Train Coming), de Mick Taylor (ex-guitarrista dos Rolling Stones) e da John Mayall Band, do tecladista Alan Clark e de dois dos músicos de estúdio mais requisitados dos Estados Unidos atualmente, o baixista Robbie Shakespeare e o baterista e percussionista Sly Dunbar, Dylan obteve um som puro, despojado, jovem e vigoroso, nas faixas mais rápidas – “Jokerman”, “Neighborhood Bully”, “Man of Peace” e “Union Sundown” -, e uma delicada, elaborada suavidade nas baladas “Sweetheart like you”, “License to kill”, “I & I” e “Don’t fall apart on me tonight” (todas as oito faixas são de sua autoria). Não há sintetizadores ou baterias eletrônicas: “as máquinas não têm a profundidade do coração humano”, disse ele.

Aos 42 anos, Dylan está cantando com uma voz cheia de energia, solta, aberta – e impressionantemente jovem. Basta conferir na faixa “Jokerman”, uma das que mais se destacam já nas primeiras audições do disco.

De resto, Dylan está cantando a religião, a política, os encontros, os desencontros, as pequenas e as grandes tragédias da humanidade com a mesma força poética que lhe garantiu o reconhecimento unânime como o mais importante compositor surgido no universo pop. Não são músicas leves, alegres, despreocupadas, dessas que se ouvem em um verão e se esquecem no verão seguinte; são obras de um artista que leva sua arte a sério. E, se estão particularmente amargas e pessimistas neste LP Infidels, é certamente porque ele está certo de que estão todos precisando – talvez mais que em qualquer outra época – de um tiro de amor.

Um pouco da biografia

Por volta de 1958, o então adolescente Robert Allen Zimmerman (ele nasceu a 24 de maio de 1941, em Duluth, Minnesota, no Meio Oeste, filho do comerciante judeu Abraham Zimmerman) vendeu sua guitarra elétrica e comprou um violão acústico. Até então ouvinte de Little Richard, Chuck Berry e Elvis Presley – os ídolos do nascente rock’n’roll – , o garoto passou a curtir um outro tipo inteiramente diferente de música: o folk, cantado e recriado por gente como Cisco Houston, Leadbelly, Pete Seeger e, especialmente, Woody Guthrie.

Foi imitando Woody Guthrie – no repertório, no estilo de tocar violão, na forma de tocar gaita entre uma estrofe e outra da canção, com o instrumento preso a um suporte junto à boca, e também na voz anasalada, fanhosa, meio rouca – que ele, em janeiro de 1961, aos 19 anos, já tendo adotado o nome de Bob Dylan, mudou-se para o Greenwich Village, o coração do mundo artístico e boêmio de Nova York. Cantava nos bares e cafés, por um prato de comida, por um dólar; dormia onde era possível, na casa de conhecidos, nas estações de metrô.

Ouvido por John Hammond, então chefe do Departamento de Novos Talentos da Columbia (o nome americano da CBS), foi contratado ainda em 1961. Gravou seu primeiro disco, Bob Dylan, em apenas três ou quatro sessões, entre o final de outubro e o início de novembro daquele ano, apenas ele, sua voz, seu violão acústico e sua gaita, apresentando 13 faixas, a maioria puro folk, muitas delas tradicionais, de domínio público; apenas duas faixas eram de sua própria autoria, e seguiam à risca o modelo folk; uma delas, “Song to Woody”, era uma declaração de amor e respeito a seu maior ídolo. O LP foi lançado em fevereiro de 1962; nos 12 primeiros meses, vendeu apenas 5 mil cópias – um fracasso.

O segundo LP, The Frewheelin’ Bob Dylan, lançado em maio de 1963, foi um estouro. Trazia músicas que falavam da indústria da guerra, do holocausto nuclear, de preconceito racial, da crise dos mísseis de Cuba, os temas básicos da juventude americana então envolvida na luta pelos direitos civis. A primeira música do disco, “Blowin’ in the Wind”, gravada em compacto por Peter, Paul and Mary, vendeu 320 mil exemplares em oito dias, e, muito mais do que isso, transformou-se no hino de uma geração inteira. É constantemente regravada, até hoje.

O terceiro LP, The Times They Are A-changin’, lançado em janeiro de 1964, prosseguia e aprofundava o envolvimento de Dylan com os temas políticos, e firmava o seu nome como o do mais brilhante compositor da nova geração descendente do folk. Nessa época, suas músicas eram cantadas em todas as grandes manifestações pelos direitos civis, como na monumental marcha sobre Washington liderada por Martin Luter King.

No seu quarto LP, lançado em agosto de 1964, no entanto, Dylan iria remar contra a maré; abandonando a onda do protesto político que o havia convertido no porta-voz da geração, ele mostrou, em Another Side of Bob Dylan, um outro lado – eram músicas líricas, introspectivas, confessionais, intimistas.

Mais ainda: passou a se apresentar, nos meses seguintes, acompanhado por instrumentos elétricos, algo tão inimaginável para os puristas do folk quanto foi aqui a apresentação de Caetano Veloso no Tuca, em 1968, em que o compositor brasileiro levou a maior vaia da sua vida. Dylan foi vaiado diversas vezes, inclusive por 14 mil pessoas que lotaram um ginásio de tênis em Nova York para vê-lo, em agosto de 1965. (Nessa apresentação, a platéia gritava frases como “Traidor!”, “Queremos Dylan”).

Ao ódio dos puristas da platéia folk seguiram-se os LPs Bringing It All Back Home (1965), Highway 61 Revisited (1965) e Blonde on Blonde (1966), nos quais o compositor voltou ao rock que abandonara na adolescência, e através dos quais conquistou uma platéia ainda mais ampla do que aquela atingida nos seus primeiros discos. Era a fase das longas letras cheias de metáforas complexas, imagens fragmentadas, falando de solidão, desespero, drogas, caos.

No dia 29 de julho de 1966, Dylan teve um grave acidente de moto; durante um ano inteiro, depois do acidente, não apareceu sequer uma vez em lugar público. Dessa reclusão com a mulher Sara, que conhecera em 1964, ele só saiu para gravar o LP John Wesley Harding, lançado em 1968. E o disco, mais uma vez, ia contra a maré; no auge da psicodélia, do rock complexo, pesado, cheio de truques de estúdio, ele apareceu com um LP de canções suaves, calmas, macias, acompanhado apenas por violão, gaita, piano e baixo, falando de solidariedade, amor pelas pessoas, responsabilidade pessoal para com a sociedade.

No disco seguinte, Nashville Skyline, lançado em maio de 1969, nova surpresa: o ex-líder do folk, ex-roqueiro, vinha agora cantando doces baladas no estilo country. Muitos críticos, no início dos anos 70, disseram que Bob Dylan havia deixado de ser um compositor maior. Seu álbum duplo de 1970, Self Portrait, por exemplo, foi tratado com desdém. O sempre surpreendente artista, no entanto, voltaria em 1974 a fazer uma turnê pelos Estados Unidos (pela primeira vez desde 1966); foi um estrondoso sucesso – ele foi visto por seis milhões de pessoas em 38 apresentações em grandes ginásios. Essa turnê foi registrada num álbum duplo gravado ao vivo, Before the Flood (1974). E os discos seguintes, Blood on the Tracks (1975) e Desire (também de 1975), foram saudados unanimemente como obras-primas, especialmente Desire, que muitos consideram seu mais perfeito LP (disco de platina, mais de um milhão de cópias vendidas).

Entre turnês pelos Estados Unidos e por diversos países da Europa e da Ásia (suas apresentações no Japão foram registradas no álbum duplo Bob Dylan at the Budokan, 1979), divorciou-se de Sara, depois de uma relação de 13 anos e quatro filhos. O divórcio, litigioso, terminou em 1977. Em 1978, Dylan converteu-se ao catolicismo; deu diversas entrevistas falando sobre a importância de se obedecer a Deus e a Jesus Cristo, e declarando que não acreditava em qualquer solução política para os problemas do mundo. Seus LPs dessa época – Slow Train Coming, de 1979, e Saved, de 1980 – foram inteiramente dedicados à pregação do cristianismo. O primeiro deles foi um extraordinário sucesso comercial.

Shot of Love, seu LP seguinte, de 1981, foi saudado pela crítica americana como um de seus trabalhos mais brilhantes; um crítico de Miami escreveu que o disco “é o melhor álbum de Dylan desde Desire; ele atingiu um perfeito equilíbrio entre o seu cristianismo e os seus talentos de compositor, de uma forma suave e excitante. Alguém poderia dizer que Dylan renasceu como compositor e também como ser humano”.

A CBS brasileira mantém em catálogo os seguintes LPs de Bob Dylan: Bob Dylan (1962), Highway 61 Revisited (1965), Greatest Hits (coletânea de 1967), Planet Waves (1974), Desire (1975), Bob Dylan at the Budokan (1979), Slow Train Comming (1979), Saved (1980) e Shot of Love (1981).

Mais sobre Bob Dylan neste site:

Dylan Volume 1 – O artista que é três, cinco, vários, alguns milhões

Dylan Volume 3 – Batendo na porta do céu

Dylan Volume 4 – Um gênio que não pára

Dylan e Joan Baez cantam na Casa Branca as músicas que mudaram os EUA

A historinha por trás do texto

Uns meses atrás, mexendo numa papelada antiga, encontrei o Recibo de Prestação de Serviços da Discos CBS Indústria e Comércio Ltda., “referente à confecção de release e biografia para o LP de Bob Dylan (Infidels)”. Guardei a pequena relíquia num lugar apropriado – o livro The Bob Dylan Scrapbook 1956-1966, uma maravilhosa edição capa dura da Simon & Schuster.

A idéia foi de Márcio Gaspar, que trabalhava na época – 1983 – como divulgador da gravadora CBS. Boa figura, sujeito educadíssimo, era o melhor divulgador de discos que havia em São Paulo, na minha opinião. Dava atenção a cada um dos sujeitos que escreviam sobre discos. Ele me levava os discos novos da gravadora na redação do Jornal do Tarde, comentava um pouco sobre os lançamentos (era o tempo em que eu escrevia sobre discos para a Variedades do JT). Marcinho tido lido minha matéria sobre Dylan, publicada em 1981, no dia em que o compositor fazia 40 anos, e indicou meu nome para escrever o press-release do disco novo, Infidels. O povo da CBS aceitou a sugestão e eu, naturalmente, aceitei o convite.

Me deram pouco material – uns poucos xerox de matérias sobre o disco, uma fita cassete e a relação das músicas.

Não ficou um bom release, acho; não foi um bom texto, essa minha única experiência de escrever texto de divulgação para uma gravadora. Dylan mereceria texto muito melhor. Eles erraram na escolha do redator, eu fiz menos do que talvez pudesse ter feito.

3 Comentários para “Dylan Volume 2 – O press-release do disco Infidels”

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