Uma certeza em 1981: Gal é a voz mais bonita da MPB

O gaúcho Vitor Ramil, 19 anos de idade, irmão mais novo de Kleiton e Kledir, gravou sua música “Estrela, Estrela” com um sofisticado, quase erudito acompanhamento de instrumentos de corda e de sopro, pouco comum na música popular, para valorizar a melodia bonita. Kleiton e Kledir gravaram a música do jovem irmão no segundo disco da dupla, lançado este mês (novembro de 1981)– e o arranjo foi igualmente rico e sofisticado, com 15 instrumentos (piano, sax, flautas, trompas, trombones) tocados por gente como Wagner Tiso, Luiz Alves, Djalma Correa, Mauro Senise.

Pois Gal Costa também gravou a mesma “Estrela, Estrela”, em seu 13º LP solo, Fantasia, que a Polygram está distribuindo para as lojas esta semana. Um certo Zéluiz, nome desconhecido (foi erro do autor; a correção vai abaixo), faz a segunda voz. Acompanhamento: a voz de Zéluiz, e vocais da própria Gal Costa, em playback. Instrumentos que acompanham: nenhum.

Não precisa. Basta a voz de Gal Cosa.

E, ao se ouvir esta faixa, a constatação é inevitável: é a voz mais bonita da música popular brasileira.

Gritos, placidez

Era uma voz de início mansa, doce, um pouco tímida – já afinadíssima, já com um timbre excepcionalmente belo, no LP Domingo, de 1967, dividido com outro estreante, o amigo Caetano Veloso. Mudaria muito, em pouco tempo: depois da explosão do tropicalismo, Gal soltou a voz; cantava quase gritando músicas que tinham muito de rock, de funk. Lembrava Janis Joplin, no início dos anos 70. Foi à fase forte, poderosa, de discos como Legal, Fatal; Gal tornou-se uma musa para uma platéia basicamente jovem.

Retomou muito da placidez original, em LPs como Cantar (1974) e Gal Canta Caymmi (1976). Voz como sempre afinada, bela, impecável, mas agora também madura, segura. Chegou à perfeição total em Água Viva (1978), e ao grande sucesso em Gal Tropical, o disco (420 mil cópias vendidas) e o show (dois anos de apresentações praticamente ininterruptas, pelo Brasil, em Portugal, na Argentina, no Japão). Atraía, agora, também um público na faixa dos 30, 40 anos.

Depois da glória, veio o fracasso: Fantasia, o show seguinte, estreou em julho deste ano no Canecão do Rio sob uma avalanche de críticas, que pouparam apenas a voz da estrela. Tudo o mais foi duramente combatido: o roteiro, a direção, os arranjos, o som, o repertório, o cenário grandioso como uma superprodução de Hollywood, os vestidos. O espetáculo foi bastante modificado, mas, mesmo assim, teve carreira curta.

Fantasia, o disco lançado agora, tem, do show fracassado, o nome e várias das músicas escolhidas. Como o disco não tem cenário ou figurino, e foi gravado nas boas condições técnicas de um estúdio, o resultado é inteiramente diferente. Porque cantar, isso a moça sem dúvida sabe. E está cantando melhor do que nunca.

É o que se constata em “Estrela, Estrela”. Ou em “Faltando um Pedaço”, de Djavan, muito bem gravada pelo autor no seu LP Sedução, deste ano; pois Gal consegue a proeza de superar a belíssima interpretação do autor. É romântica, é sensível, sem jamais resvalar pela pieguice ou pelo dramalhão.

Talvez porque queira agradar a todo tipo de público, o muito jovem e o maduro, depois do fracasso de seu último show, Gal escolheu um repertório bem variado. Alterna melodias tranqüilas, calmas, com outras festivas, alegres, dançantes. Dá-se bem nos dois tipos. Assim, está impecável em músicas intimistas, suaves, como “Meu bem, meu mal”, já sucesso na trilha sonora da novela das oito, e “Tapete Mágico” (ambas de Caetano Veloso) – e também nas carnavalescas “Festas do Interior” (Moraes Moreira e Abel Silva) e “Massa real” (também de Caetano).

Completam o disco “Açaí”, de Djavan, “Roda Baiana”, de Ivan Lins e Vitor Martins, “Amor”, poema de Vladimir Maiakovski traduzindo por Ney Costa Santos e musicado por Caetano, e “Canta, Brasil”, de David Nasser e Alcir Pires Vermelho, que o Chico Alves gravou com muito sucesso em 1941. Um repertório irregular, mas que não tem nenhuma música de fato fraca.

Os arranjos são em geral corretos. Embora Lincoln Olivetti e Gilson Peranzetta (o terceiro dos arranjadores é Guto Graça Mello) às vezes pequem pelo excesso de metais e teclados elétricos, aqui deixaram o disco mostrar aquilo que ele tem de melhor – a voz da cantora. (No show Fantasia, segundo a opinião unânime da crítica carioca, o sonzão de sintetizadores e quetais oprimia a voz e Gal). E há momentos extraordinários, como “Faltando um pedaço” e “Estrela, Estrela”.

O autor do texto pisou no tomate

Esta resenha foi publicada no Jornal da Tarde em 17/11/1981. Continha um dos graves erros que cometi no período em que escrevi resenhas (o jornal usava a palavra crítica, que detesto) sobre discos e shows no JT, entre 1981 e 1984, quando saí do jornal para a aventura da revista Afinal.

Zéluiz – que chamei de “um certo Zéluiz, nome desconhecido” – já era um cantor de prestígio e algum sucesso. No ano seguinte, 1982, gravaria, ao lado de Alaíde Costa e Zezé Gonzaga, o belo disco Sidney Miller, da Funarte, com sucessos e algumas canções inéditas do grande compositor carioca, morto prematuramente demais.

Houve cartas para o jornal, protestando contra a ignorância do crítico. E o irônico é que Zéluiz é primo do meu colega e amigo Anélio Barreto; Fernanda, a irmã do Anélio, gozou muito a minha cara por causa dessa mancada imbecil.

Crítico fala mesmo imbecilidades.

Quanto ao cerne do texto – a afirmação de que Gal era a mais bela voz da MPB naquele início dos anos 80 –, isso eu mantenho. Sem qualquer resquício de vergonha.

Um comentário para “Uma certeza em 1981: Gal é a voz mais bonita da MPB”

  1. Se a Gal conseguisse reproduzir o mesmo timbre ao vivo seria fascinante,sua voz aparece quase sempre cansada nos shows.Mas é realmente uma linda voz,e uma grande cantora de estúdio.

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