Quando Milton lotou o Ibirapuera para lançar Sentinela

Nas arquibancadas, nas cadeiras numeradas e nas cadeiras da pista do ginásio do Ibirapuera, a imensa maioria das cerca de 12 mil pessoas cantava, acompanhava o ritmo da música com palmas, os braços estendidos para cima. No palco, havia uma festa de amigos. Tavinho Moura cantava “Calix Bento”, música que ele adaptou de um motivo popular do Norte de Minas. Milton Nascimento, o astro do espetáculo, cantava junto com o amigo, circulando pelo palco, o rosto encharcado de suor, sorridente, expressão de felicidade e satisfação. Ás vezes passava perto dos músicos, que, ao redor do piano elétrico de Wagner Tiso, bebericavam em dois copos plásticos, colocados ali à disposição de todos.

As luzes do ginásio se acenderam. Os músicos saíram do palco.

Durante exatos cinco minutos, quase ninguém, na gigantesca platéia, fez qualquer movimento em direção às saídas. O povo aplaudia, pedia “mais um”, “volta”. Houve até algumas vaias, diante da ausência do astro.

Pedindo bis

Em toda a turnê pelo País, divulgando seu último disco Sentinela, Milton Nascimento voltou, diante dos pedidos de bis, e cantou mais uma, duas, até três músicas. No espetáculo de sábado (7 de fevereiro de 1981), ele não voltou.

E foi a melhor noite de toda a turnê (que incluiu Belo Horizonte, Rio, Fortaleza e Natal e encerra-se amanhã (10/2/1981) em Ribeirão Preto). Era o que comentavam, após o show do sábado, vários dos músicos que acompanharam Milton, além de outras pessoas de sua equipe.

– O público estava bom demais, foi o melhor público de toda a turnê – dizia, por exemplo, Marco Antônio Guimarães, do Grupo Uakti. – O Milton teria voltado e cantado mais várias músicas mesmo. Ele estava muito satisfeito.

Uma bomba?

Ele não voltou ao palco. Naquele momento em que 12 mil pessoas exigiam, aos gritos, sua volta, Milton Nascimento estava sendo informado pelo seu empresário e por seu advogado, no camarim, de que havia uma ameaça sobre a existência de uma bomba sob o palco.

Faltava pouco para o show terminar quando houve os telefonemas com a ameaça. Foram três: para o Deops, para a Assembléia Legislativa e para a administração do ginásio do Ibirapuera. Pessoas que se diziam da Falange Pátria Nova – uma organização de extrema direita – falavam que uma bomba colocada sob o palco iria explodir.

Milton e Tavinho Moura cantavam “Calix Bento”, Wagner Tiso, Hélio Delmiro e os outros músicos bebericavam nos dois copos de plástico, o povo cantava junto e batia palmas, enquanto o advogado de Milton, de trás do palco, fazia sinais para chamar sua atenção. Quando conseguiu, levou Milton para o camarim e deu a notícia.

Durante cinco minutos, o pessoal da equipe viu o público pedir bis e não arredar pé do estádio – não podendo fazer absolutamente nada, já que avisar sobre a ameaça de bomba teria provocado um pânico e um tumulto que poderiam causar até mesmo mortes.

O povo começou a sair, depois de cinco minutos de desapontamento – e de terrível tensão para os organizadores do show. O Deops vasculhou o lugar. Não havia bomba.

– Quando avisam que vai ter bomba é porque não tem – dizia meia hora depois Wagner Tiso, já de volta ao hotel onde toda a equipe ficou hospedada. E ele lembrava que, no segundo dia do show que deu no primeiro semestre do ano passado (1980), na Fundação Getúlio Vargas, também houve telefonemas falando da existência de bombas – e o teatro teve que ser esvaziado, para que a polícia desse a busca.

Sim, comentavam outros membros da equipe – mas e se tivesse mesmo? É impossível deixar de ter medo. E o show teria mesmo que ser interrompido.

Na realidade, ele nem chegou a ser interrompido. Apenas não houve as voltas ao palco – e Milton Nascimento teria tido prazer em voltar, atendendo a um público que o acompanhou com emoção e carinho durante exatamente uma hora e 50 minutos.

Os aplausos

E foi, de fato, um público capaz de deixar qualquer artista absolutamente satisfeito. O ginásio do Ibirapuera estava quase inteiramente lotado (assim como na primeira das duas únicas apresentações do show em São Paulo, na sexta-feira; nos dois dias, cerca de 25 mil pessoas aplaudiram Milton Nascimento). E essa multidão ficou de pé para acompanhar com palmas as músicas de ritmo mais forte; dançou, mexeu o corpo nas músicas mais alegres; fez absoluto silêncio nas músicas menos conhecidas ou mais lentas; cantou junto com Milton em alguns momentos; e cantou sem ele, apenas ao som de seu violão, a música de maior sucesso do último disco, “Canção da América” (Milton Nascimento e Fernando Brant). Além de aplaudir com emoção e entusiasmo cada uma das obras e das interpretações.

O ginásio foi-se enchendo rapidamente, a partir das 19h40, quando os portões foram abertos. Houve alguma correria, quando a multidão que começava a se formar arrastou para frente as cadeiras colocadas no piso do ginásio, a fim de chegar mais perto do palco. Mas não chegou a haver tumulto.

Pelos alto-falantes, um locutor insistia em dizer, seguidas vezes, o nome do secretário estadual de Esportes. A cada vez que isso acontecia, havia alguns protestos. Nada, é claro, tão ensurdecedor quanto no momento em que num dos alto-falantes se pronunciou o nome do governador do Estado, às nove da noite. Houve 30 segundos de violenta vaia. Certamente ninguém, no ginásio, ouviu inteira a frase que começava com “ O dr. Paulo Maluf, governador…”

Maluf: as vaias

Pouco depois da unânime vaia ao dr. governador, houve a tradicional invasão das cadeiras numeradas ainda vagas, pelo pessoal das arquibancadas. Mas a agitação diminuiu quando o grupo Uakti começou a tocar “Dança da Chuva” (Marco Antonio Guimarães). Nem a impaciência do público por não ver ainda no palco o astro do espetáculo impediu que se fizesse silêncio diante de uma música desconhecida, tocada por um conjunto que usa estranhos instrumentos experimentais que eles mesmos criam e fabricam, como o Grande Pan (instrumento de percussão feito com tubos de PVC) ou o Iarragunga (uma espécie de violoncelo cujo corpo é uma cabaça).

Ao final da música do grupo mineiro (que acompanha Milton em algumas faixas do disco Sentinela e que deverá gravar seu próprio disco no mês de julho de 1981, pela Ariola), chegou o astro. Sob muitos aplausos, Milton – descalço, calça jeans, camiseta azul, o eterno boné, um grande sorriso – sentou-se no banquinho, pegou o violão e cantou “Sem Fim”, música nova de Novellli e Cacaso. Ao final, sempre muito aplaudido, olhou, sorrindo para os músicos.

Ele iria sorrir, muito, durante todo o show, diante dos aplausos crescentes e do entusiasmo do povo.

Milton cantou, depois de “Sem Fim”, 19 músicas – ora acompanhado pelos músicos Wagner Tiso (teclados), Hélio Delmiro e Ricardo Silveira (guitarras), Luis Alves (guitarra baixo) e Robertinho Silva (bateria), ora pelo grupo Uakti (Marco Antonio Guimarães, Cláudio Luz do Val, Paulo Sérgio dos Santos e Artur Ribeiro) – e, às vezes, pelos dois conjuntos. Ele alternava músicas mais, digamos, “dançáveis” com outras mais lentas – e o público ora se exprimia com palmas e dança, ora ouvia em total silêncio.

O público, em pé

Depois de “Maria, Maria” (Milton e Fernando Brant), por exemplo – primeiro momento em que o público se levantou para bater palmas e cantar junto – veio “Clube da Esquina nº 2” (Milton, Lô Borges e Márcio Borges) – e o povo sentou-se em silêncio, para apenas ouvir.

Ele cantou ainda “Assim Seja” (dele, de Wagner Tiso e Fernando Brant), “Ponta de Areia” (Milton e Fernando Brant), “Bela Bela” (poema de Ferreira Gullar, musicado por Milton), a inédita “Vevecos, Panelas e Canelas” (Milton e Fernando Brant), e “Itamarandiba” (Milton e Fernando Brant), acompanhado pelo conjunto.

Depois, com o grupo Uakti, vieram “Casamiento de Negros” (do folclore chileno, adaptado por Violeta Parra), “Um cafuné na cabeça, malandro, eu quero até de macaco” (letra de Leila Diniz, música de Milton) e “Promessas do Sol” (Milton e Fernando Brant). Nessas duas últimas, os solos do grupo mineiro com seus estranhos instrumentos foram muito aplaudidos.

Para cantar “Nada Será Como Antes” (Milton e Ronaldo Bastos), ele desceu, pela primeira vez, do banquinho onde estava sentado desde o início do show. Passeou pelo tablado, mexeu o corpo, gingou – e cantou voltado para os desafortunados que só encontraram lugar nas arquibancadas atrás do palco. Saiu debaixo de aplausos entusiasmados, deixando Wagner Tiso, Hélio Delmiro e os outros competentes músicos do conjunto executando um rock forte e muito ritmado.

Voltaria ao palco para cantar “Travessia”, a música que o revelou, no longínquo 1967, e, em seguida, “Caçador de Mim” (Sérgio Magrão e Sá), uma bela música pouco conhecida do segundo disco do conjunto 14 Bis.

A maior explosão do público veio em seguida, quando Milton cantou “Para Lennon e McCartney” (de Lô Borges e Fernando Brant). Ele repetiu várias vezes o refrão, o povo cantando junto – deixando, às vezes, apenas os músicos tocando, Hélio Delmiro fazendo incríveis improvisações na guitarra. O público dançava, batia palmas – e, no meio do ginásio, surgiu uma faixa – como se fossem os velhos festivais – , com um trecho (aliás, copiado erradamente) da letra: “Eu sou vocês, sou do mundo, sou Minas Gerais ( a letra diz “sou o mundo, sou Minas Gerais”).

Depois viriam “Cantiga (Caicó)” (tema folclórico, letra de Teca Calazans) e “Canção da América”. Para acompanhar Milton nessas músicas, apareceu no palco Toninho Horta, que tomou o lugar do guitarrista Ricardo Silveira, numa canja previamente combinada.

Haveria ainda “Roupa Nova” (Milton e Fernando Brant), e depois “Peixinhos do Mar”, domínio público adaptado por Tavinho Moura, que subiu ao palco para cantar junto com Milton.

Depois, “Calix Bento”. Festa no palco. Milton andando pelo tablado sorrindo aberto, feliz – o rosto encharcado de um suor que ele não se preocupava em secar.

Atrás do palco, faziam gestos para que ele saísse, parasse de cantar. Telefonemas, ameaças, bomba.

– Hoje o Milton ia cantar uma porção de músicas a mais, sem parar – diria, depois, o Paulinho do Grupo Uakti. E repetiria várias vezes: – Hoje o Milton não ia parar de cantar.

A história atrás do texto

Esta reportagem foi publicada no Jornal da Tarde em 9 de fevereiro de 1981.

Como o tempo passa depressa demais, e a memória da gente vai falhando, e também porque algum eventual leitor mais jovem pode estranhar uma ameaça de bomba num show de Milton Nascimento, é preciso registrar: o atentado do Riocentro aconteceu poucos meses depois da realização desse show – foi no dia 30 de abril daquele ano de 1981, véspera do 1º de Maio. No próprio texto, está dito que Wagner Tiso comentou sobre outra ameaça de atentado, em 1980.

Era a época dos atentados – e ameaças de atentados – terroristas de extrema direita a bancas de jornais, à sede da OAB no Rio, a locais de shows de artistas tidos como “de esquerda”. Esses atentados certamente envolveram militares e policiais que trabalharam na repressão e tortura aos que combatiam o regime, e estavam inconformados com o processo de abertura política iniciado pelo general Geisel (1974-1979) e que prosseguiria, aos trancos e barrancos, pelo general Figueiredo (1979-1985), até a devolução do poder aos civis, após a eleição indireta do presidente Tancredo Neves.

Feito o registro, me permito contar a historinha pessoal por trás da reportagem.

Não me lembro como os outros jornais deram essa história, mas é bastante possível que não tenham dado melhor do que o Jornal da Tarde. Acho que acabei tendo mais informações, detalhes, um pouco de clima, que os demais jornalistas. Não por mérito meu – nunca fui bom repórter, muito antes o contrário. Foi pura sorte – na verdade, dois golpes de sorte. O primeiro foi que o JT não circulava aos domingos, assim como o Estadão não circulava nas segundas-feiras; assim, não tive que sair correndo para a redação para fazer o texto – poderia entregá-lo até o início da noite do domingo. O segundo, e bem mais importante, golpe de sorte foi que, terminado o show, fomos nos encontrar, Regina Lemos e eu, com Marco Antônio Guimarães e os outros músicos do Uakti. Marco Antônio e eu fomos colegas e bastante amigos no ginásio, no Colégio de Aplicação, e durante um bom tempo depois. E tínhamos combinado previamente nos encontrar depois do show.

Nenhum mérito meu na reportagem: tive informações privilegiadas por pura sorte, puro acaso.

Já falei aqui de Marco Antônio Guimarães, o extraordinário compositor e instrumentista, numa notinha ao pé da resenha que escrevi para o Jornal da Tarde quando saiu o primeiro disco do Uakti. Por uma dessas gostosas coincidências da vida, foi um tanto a partir dessa notinha que eu acabaria reencontrando Vivina de Assis Viana, nossa professora – minha, do Tonho, da Lalá, da Consuelo, da Regina Ferreira, do Cuca, do Juca, do Walter, da Cecília – no Aplicação e amiga de vida inteira, mas que andava meio distante.

Só mais um detalhinho. Esta reportagem foi meu segundo trabalho na breve carreira de resenhista de música da Variedades do JT, entre janeiro de 1981 e junho de 1984, quando saí do jornal, após 14 anos, para a revista Afinal. O primeiro tinha sido uma resenha do disco recém-lançado de Chico Buarque. O terceiro, uma resenha do disco novo de Elis Regina.. Chico, Milton, Elis. É, foi um bom começo.  

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