O primeiro disco do Uakti

Uakti – Oficina Instrumental é um dos melhores discos lançados este ano. E um dos discos mais criativos, arrojados, novos e fortes da música brasileira nos últimos tempos.

As afirmações podem parecer algo arriscadas. Principalmente levando-se em conta que pouquíssima gente se lembra de ter ouvido falar no nome estranho desse conjunto. Mas elas são plenamente justificadas ao se ouvir o LP que a Ariola lançou há poucas semanas (o texto é de 1981).

Antes de mais nada, é preciso lembrar que, embora o nome do conjunto seja desconhecido, muita gente já ouviu o som que ele produz. Este Uakti – Oficina Instrumental é o primeiro LP solo do grupo, mas o conjunto já tocou em quatro LPs lançados nacionalmente do ano passado para cá. O grupo participou da gravação de uma faixa do LP Tavinho Moura, da RCA, lançado no começo de 1980; está também em duas faixas de Cabaret Mineiro, a trilha sonora premiada do premiado filme de Carlos Alberto Prates Correia. E participou, com destaque, de Sentinela, LP e show de Milton Nascimento, e também de Caçador de Mim, o último disco do compositor mineiro.

Uakti capaAssim, não se trata propriamente de um LP de principiantes. Mas como é um trabalho inovador, pouco convencional, corre o risco de permanecer inédito para boa parte do público, já que o sistema de divulgação musical, principalmente através do rádio, prefere investir no já conhecido, no já aceito, no tradicional.

Seria uma pena e uma injustiça este LP não atingir públicos maiores. Mas não seria uma novidade. Aconteceu a mesma coisa por exemplo, com Amazonas, primeiro LP gravado por Naná Vasconcelos no Brasil, na Philips, em 1973, e hoje ausente das lojas (onde há vários discos de Naná – gravados na Europa). Ou com Smetak, disco que Caetano Veloso co-produziu para a Philips, em 1974, hoje também fora de catálogo.

Uakti/Smetak

Aliás, boa parte da origem deste Uakti – Oficina Instrumental será relacionada com Smetak. Walter Smetak é possivelmente uma das figuras mais inventivas e revolucionárias da música feita no Brasil; nascido na Suíça, descendente de tchecoslovacos, diplomado como violoncelista, com estudos nos conservatórios de Zurique, Salzburgo e Viena e participação em movimentos vanguardistas na Europa, radicou-se na Bahia, onde inventou mais de cem novos instrumentos musicais, utilizando objetos como cabaças, cabos de vassouras, tubos de isopor e plástico. Suas experiências chamaram a atenção de gente como Gilberto Gil, Rogério Duarte, Tom Zé e Caetano Veloso (que, além de co-produzir o único LP solo do compositor distribuído comercialmente, prestou-lhe uma emocionante homenagem na música Épico, no disco mais arrojado da sua carreira, Araçá Azul, de 1973).

Professor nos Seminários de Música da Universidade Federal da Bahia, Smetak fascinou e influenciou profundamente, entre outros alunos da escola, o mineiro Marco Antonio Guimarães. Depois de quatro anos de estudo na Bahia, no final dos anos 60, Marco Antonio passou um bom tempo tocando violoncelo em orquestras de São Paulo (tocou na Sinfônica Estadual, regida pelo maestro Eleazar de Carvalho) e de Minas. Mas, ao lado da música erudita tradicional, jamais deixou de cultivar o gosto pelo inovador, pelo experimental, herdado da bossa nova, do tropicalismo, dos Beatles e, em boa parte, do mestre Smetak.

E foi inspirado no exemplo de Smetak, que, de volta a Belo Horizonte, na metade da década de 70, Marco Antonio passou a inventar e a construir os seus próprios instrumentos. Já criou cerca de 40. E são esses instrumentos – aliados a outros tradicionais, como violão, violoncelo e flautas – que fazem o som do grupo Uakti, hoje formado por Marco Antonio, Paulo Sérgio Santos, Artur Andrés Ribeiro, Décio Souza Ramos e Bento Menezes – todos eles mineiros, com boa vivência de música erudita e popular.

Um som exótico, incomum

 

 A aproximação com Milton Nascimento facilitou a gravação deste primeiro LP solo do grupo: Milton é o diretor artístico e co-produtor do disco (ao lado de Marco Antonio Guimarães). É de Milton, também, a primeira música do LP, “Promessas do Sol”, parceria com Fernando Brant, e gravada pelo cantor em Geraes, de 1976. O arranjo é de Marco Antonio Guimarães, e os instrumentos principais são o Chori Smetano (tocado como o violoncelo, com arco, mas que possui uma sonoridade especial, diferente, às vezes próxima à de instrumentos da música indiana), o Pan (instrumentos de percussão, feitos com tubos de PVC e tocados com tocos de madeira); há ainda efeitos especiais do piano, tocado com baqueta, e flautas que, em alguns momentos, lembram o som dos instrumentos andinos do arranjo original da música no LP de Milton.

As outras cinco músicas do LP são criações do conjunto: quatro são da autoria de Marco Antonio Guimarães (“Dança da Chuva”, que abriu o show de Milton Nascimento no Ibirapuera, no primeiro semestre deste ano, e mais “Maíra”, “As nove esferas” e “Planeta Terra”), e uma é assinada por todos os membros do grupo (“Uakti”, nome do personagem de uma lenda dos índios tucanos, do Amazonas, e de onde o grupo tirou seu próprio nome).

O som dos instrumentos criados por Marco Antonio Guimarães é exótico, estranho, os efeitos são surpreendentes. As composições, belíssimas e elaboradas. O resultado final – uma mescla de elementos eruditos, orientais, vanguardistas – aproxima o trabalho do conjunto do que existe de melhor na música instrumental contemporânea do país, como Egberto Gismonti, Hermeto Paschoal, Naná Vasconcelos ou Fernando Falcão, o compositor e, percussionista paraibano radicado há anos em Paris e que foi outra grata surpresa musical deste ano.

A historinha por trás do texto

Tive muitas sortes na vida. Uma delas foi ter feito o ginásio no Colégio de Aplicação de Belo Horizonte, com maravilhosos professores – e outra foi a de que a minha turma do Aplicação era especialmente rica, cheia de gente maravilhosa, interessante, inteligente e – por que não? – bonita.

Uma sorte grande foi ter Vivina de Assis Vianna como professora, no Aplicação, e, muito mais que professora, uma mestre de vida, amiga, ouvinte, conselheira, aglutinadora das pessoas. Guia.

Vivina foi nossa professora de Francês no segundo ano; chegou como substituta da titular que se afastou porque estava grávida, acho. Sorte. E foi a professora titular no quarto ano.

Recebia os meninos e meninas depois da aula na sala de sua casa – um apartamento bem perto do Aplicação, que dividia com duas colegas, Clara, estudante de Arquitetura, e Bernadete (será? minha memória não é tão boa assim). E falávamos sobre a vida o amor a morte, as inquietações adolescentes, tudo. Vivina sabia ouvir, com uma paciência que me parecia infinita. E dava indicações – o que ler, o que procurar, o que é importante, o que é para ser deixado de lado.

Vivina teve, evidentemente, várias turmas de alunos, mas ela gostava especialmente daquela turma, a minha, a que começou o ginásio no Aplicação em 1961, para a qual ela deu aula primeiro em 1962 e depois em 1964. Em parte, talvez, porque foi a primeira turma que ela pegou, ainda terminando o curso na Faculdade de Letras, Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais, à qual pertencia o Colégio de Aplicação. Em parte porque a turma era mesmo especial. Diria, mais tarde, muitas vezes, que aquela era uma turma especial, com muitos meninos inteligentes, bem inteligentes – e, no meio deles, um gênio.

Vivina – mais tarde uma escritora de talento reconhecido – tem toda razão. A turma tinha um bando de meninos inteligentes: Cuca, Loló, Consuelo, Eduardo, Regina, Cecília, Dudu, Juca, e muitos outros que não me vêm à memória por culpa dela, a memória. A besta aqui. Mas tinha um gênio. O gênio era Marco Antônio Guimarães.

3 Comentários para “O primeiro disco do Uakti”

  1. Sérgio, meu aluno inesquecível, meu amigo querido,

    não tem jeito, vou te plagiar: Tive muitas sortes na vida.
    Uma delas foi ter sido professora do Aplicação naquela época, pra aquela turma. Outra, morar perto do Colégio. Chamar a turma pra casa, conversar, discutir, sonhar, protestar. Protestávamos, como não? Anos 60, ouvíamos Nara Leão, protestávamos. Às vezes
    – nos revelando – silenciávamos.
    Passado tanto tempo, você confessa que me via como guia. Tenho certeza do contrário. Vocês guiavam meus primeiros anos de profissão. Anos inseguros, imaturos.
    Durante as aulas, sentia olhares receptivos, admirados, carinhosos. É dessa época a lição jamais esquecida: Adolescente é receptivo. Sabe admirar, acarinhar. Basta que não lhe fechem a porta. Basta que seja olhado, e que os olhares sejam recetivos, admirados, carinhosos.
    Nossa troca era de igual pra igual, Sérgio. Daqui pra lá e de lá pra cá. Nós nos misturávamos, nos irmanávamos. Durante as aulas e fora delas.
    Ainda não sábíamos que “as coisas estão no mundo, só que eu preciso aprender”, porque o Paulinho da Viola ainda não havia nos ensinado, mas sabíamos, sim, que estávamos nos ensinando, nos estudando, nos aprendendo e nos apreendendo. Impossível não nos estimarmos.
    Você tem razão, sempre senti um afeto enorme por aquela turma. Nada mais fácil, vocês eram adoráveis.
    Exatos vinte anos mais tarde, quando quis escrever um livro que falasse um pouco das relações entre professores e alunos, não tive dúvidas em escolher vocês, com os nomes reais, os sonhos, as personalidades.
    Claro que criei, imaginei, inventei. Isso cabe ao escritor. Mas inventei a partir do conhecido, do revelado, do apalpado.
    Vocês estão todos lá, no “Suando frio”, que tem cara e cheiro de saudade.
    Quando o escrevi, Marco Antônio Guimarães, o Tonho, já se dedicava ao “Uakti”. Assim, o livro falava dele adolescente, mas eu já o conhecia adulto.
    Aqui e ali, a identificação com a música. Personagem do livro, menino, violão debaixo do braço. Violão que ele tocava de costas, lembra?
    Personalidade reconhecida mundialmente, homem feito, os mais variados e exóticos instrumentos. Todos tocados com a alma. Com a marca do gênio.
    Sergio, meu aluno querido, meu amigo inesquecível, as músicas do “nosso” gênio seguem nos dizendo que tivemos – e temos – muitas sortes na vida.

    Beijo de aluna e de professora, que é assim que me sinto diante de você, de vocês.

    Vivina.

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