João Gilberto é a perfeição

Nove meses de gestação, e o disco ainda não chegou às lojas. Muito mistério, repertório guardado em segredo até poucos dias atrás, todos os estranhos proibidos de entrar no estúdio de gravação. Primeira apresentação pública através de uma rádio do Interior, de Aparecida, escolhida não se sabe exatamente por que motivos. A fita máster com as vozes indo para os Estados Unidos, para receber o acompanhamento. Na volta, o Artista, descontente, mexe no resultado, remixa várias vezes algumas faixas. Na última hora, o disco já prensado, capa pronta, já com a data de lançamento marcada para anteontem (4 de junho de 1981), adia-se novamente o nascimento definitivo da Obra.

Por tudo isso, e por todos os antecedentes (shows cancelados depois de todos os ingressos vendidos, para lembrar apenas um), podem-se usar vários adjetivos ao lado do nome de João Gilberto. Louco, excêntrico, maníaco, genioso, birrento, chato.

brasilLPNo momento em que a agulha do toca-discos baixa e encosta no disco, entretanto, o adjetivo a ser usado só pode ser um: perfeito.

João Gilberto é a perfeição.

Não que isso seja novidade. Já se passaram 22 anos desde o lançamento, em março de 1959, do histórico, marcante, revolucionário, divisor de águas Chega de Saudade, seu primeiro LP. Por oito outras vezes, depois disso, ele provou que é perfeito. Este disco que está pronto – seu décimo LP – vem provar a mesma coisa, mais uma vez.

Emocionante, definitivo

Não é novidade. É emocionante, definitivo.

João Gilberto é a voz mais brilhante da música popular brasileira – e isso fica claro, límpido, ao se ouvir este Brasil. Mais que todas as outras, a voz de João executa aquela tarefa proposta pela bossa nova, o mais marcante movimento que nossa música já conheceu: a de fazer da voz do cantor um instrumento da orquestra. Não um instrumento que se sobressai do conjunto, que usa o conjunto para se destacar. Mas um instrumento que é parte integrante de um todo harmônico; que não briga, que não contrasta com o conjunto, mas que se funde a ele, se completa com ele, completando-o.

“Um tipo de interpretação discreta e direta, quase falada, que se opunha de todo em todo aos estertores sentimentais do bolero e aos campeonatos de agudos vocais – ao belcanto em suma, que desde muito impregnou a música popular ocidental”, como escreveu o poeta Augusto de Campos, em 1966. “O cantor não mais se opõe como solista à orquestra. Ambos se integram, se conciliam, sem apresentarem elementos de contraste”, como escreveu o musicólogo Brasil Rocha Brito em 1960.

Sim, não é de hoje que João ensina sua lição. A lição já velha de mais de 20 anos, no entanto, permanece atual, fresca. Assim como Chega de Saudade permanece moderno, vivo, este Brasil certamente permanecerá moderno e vivo para os ouvidos de nossos filhos. Simplesmente porque a perfeição não fica velha.

Guia

Além de brilhante, e perfeita, a voz de João é, sobretudo, um guia. E essa novidade também já um tanto conhecida fica mais uma vez patente ao se ouvir Brasil. Porque no disco estão também as vozes de dois dos nossos maiores artistas, e de quebra a voz tão elogiada da mulher que vende mais discos no País. Mas as vozes de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Maria Bethânia parecem – como disse o crítico Tarik de Souza – sair da garganta do ventríloquo João Gilberto.

Na capa do disco e na foto interna, de fato, aparecem os quatro baianos. A lombada da capa e o selo informam, no entanto, que o disco é de João, Caetano e Gil, sendo Bethânia uma convidada especial em uma das seis únicas faixas (são apenas 29 minutos, bem menos que a duração normal de um LP de música popular). Mas a impressão que se tem é de que, na verdade, trata-se de um disco apenas de João Gilberto.

Basta ouvir “Disse alguém”, versão em português de Haroldo Barbosa da conhecidíssima “All of me” (Seymour Simons e Gerald Marks). São três vozes – mas três vozes em uníssono, mais parecendo três vozes de João Gilberto mixadas em estúdio. É preciso ouvir várias vezes para perceber claramente que ali estão, ao lado da voz-guia, da voz do mestre, as vozes personalíssimas de Caetano e Gil.

Porque João faz com que mesmo vozes tão pessoais quanto as de seus discípulos se amoldem ao conjunto. E quem dá as linhas do conjunto é ele, o guia.

Isso fica ainda mais claro – talvez porque mais surpreendente – na primeira faixa do lado 2, “No tabuleiro da baiana”. Lá estão João e seus dois seguidores – e então surge Maria Bethânia. Mas você jamais ouviu Maria Bethânia cantar daquela forma. Ela é outra. Não grita, não geme, não faz drama. Apenas canta – belíssima, como jamais cantou, nem mesmo nos primeiros tempos de “Três apitos”, “É de manhã”, “Prá dizer adeus”. Suave. Parte do conjunto. Instrumento da orquestra.

(E Bethânia sabe disso. Ela disse, depois da gravação, que cantou praticamente “conversando, nós quatro sem fone no ouvido, só com o violão dele. Quando me ouvi, perguntei – que é isso? Tomei um susto danado. Não tem lembrança da cantora que eu sou, que todo mundo conhece nos meus discos. Fui apresentada a mim de novo”).

brasilCDE como a “orquestra” toca maravilhosamente. Seria talvez de se esperar que a audição de “No tabuleiro da baiana” fosse prejudicada pelo fato de a música ser tão conhecida, tão gravada e regravada, tão tocada na rádio, nos últimos meses, depois da gravação de Gal e Caetano que fez muito sucesso. Que nada. É uma música inteiramente nova, essa que a “orquestra” de João Gilberto nos apresenta agora. Assim como é inteiramente nova a “Aquarela do Brasil”, música que abre o disco e que já teve cerca de 200 gravações diferentes, no Brasil e no Exterior, desde que foi composta por Ary Barroso em 1939. João Gilberto recria, reinventa, reinterpreta, com sua voz, com o violão e sua batida revolucionária, com o acompanhamento discreto, elegante, providenciado nos Estados Unidos pelo maestro Johnny Mandel e cuidadosamente mixado sob as ordens do produtor Guto Graça Melo. É, claro, com seus discípulos Caetano e Gil cantando solo, ora um, ora outro, com sua presença pessoal mas ao mesmo tempo reverente à regência do mestre.

(A reverência ao mestre pode ser sentida até mesmo no sutil detalhe da colocação das vozes nos canais de gravação, em “Aquarela do Brasil”. Quem quiser testar, basta ouvir o disco no fone de ouvido: depois que os três, em uníssono, apresentam: a primeira estrofe, João canta as duas estrofes seguintes sozinho – e ocupa os canais que são reproduzidos exatamente no meio entre os dois fones; quando Gil canta solo, sua voz aparece ligeiramente à esquerda do centro; a de Caetano, que vem a seguir, aparece ligeiramente à direita. O centro é de João, mesmo quando ele não está presente).

Erros na perfeição

Pois a décima dose de perfeição do perfeccionista João Gilberto ainda não pode ser comprada nas lojas, por causa de um problema detectado na última hora. Não que ele, o louco, o excêntrico, o maníaco, etc., tenha implicado com algum acorde dos violinos e resolvido remixar o disco. O som está pronto, perfeito – embora ele, o perfeccionista, declare que não está cem por cento satisfeito com o resultado dos nove meses de gestação. O que retarda agora a chegada dos discos à loja é uma questão alheia ao som. Descobriu-se, esta semana, que o encarte contendo as letras está cheio de erros. Mas não são dois ou três pequenos erros de revisão – são dezenas de erros grosseiros, absurdos. Nos 27 versos de “Disse Alguém” há oito erros. “A implorar alguém que não me quis” tinha virado, por exemplo, “Ai, Dora Alguém que não lhe quis”. Na letra de “Bahia com H”, há nada menos que 11 erros, entre os quais aparece “teus sobrados e queijos” em vez do correto “teus sobrados e igrejas”. O encarte terá de ser impresso novamente.

Meio demais para quem é maníaco pela perfeição. E se o homem resolve tomar um avião para Nova York e não voltar mais?

A historinha por trás do texto

Antes de mais nada: a primeira das capas reproduzidas aí acima é a original do LP. A segunda é a capa criada para o lançamento do disco em CD.

Essa “crítica” – prefiro chamar de resenha – saiu no Jornal da Tarde embaixo de uma grande matéria de Maria Amélia Rocha Lopes sobre o disco de João Gilberto. Se não me engano, era uma página inteira, “limpa”, como dizíamos, ou seja, sem anúncios, sobre o novo e aguardado lançamento de um dos maiores nomes da MPB. Maria Amélia também assinava críticas de MPB no Jornal da Tarde, naquela época, início dos anos 80; os críticos oficiais de MPB do jornal eram ela e Vladimir Soares; eu era um free-lancer, convocado quando os titulares estavam muito ocupados.

Mais tarde, em 1984, Maria Amélia trabalharia na editoria de Cultura da revista Afinal, onde estava também outro crítico de música, Dirceu Soares, vindo da Folha de S. Paulo. Quem editava Cultura era Gilberto Mansur; eu editava Reportagem Geral. Em janeiro de 1985, Mansur deixou o dia-a-dia da redação para assessorar o dono da revista, Gustavo Cubas, e eu fui deslocado para a Cultura. Editoria interessante, aquela: três sujeitos que escreviam sobre música brasileira – Maria Amélia, Dirceu e eu mesmo –, mais Geraldo Mayrink, que se dividia entre reportagens especiais e as críticas de cinema, e Marta Goes, que editava um suplemento chamado Mulher. Quatro pessoas da área de Cultura, experientes, tarimbadas, e, no cargo de chefia, um intruso, um outsider, um cara de área inferior, menor, a Geral – eu.

Ao reler o texto da resenha, agora, quase 30 anos depois, fiquei um tanto surpreendido por ter citado Augusto de Campos. Deve ter sido uma tentativa de puxar o saco do diretor de redação do Jornal da Tarde, mais tarde diretor de redação da Afinal, Fernando Mitre. Mitre era – e deve ser até hoje – chegado a uma semiótica.

6 Comentários para “João Gilberto é a perfeição”

  1. João Gilberto,o xarope mais conhecido do Brasil, de gênio não tem nada, mais chato que ele só a música que ele canta (ou fala). Agora está colhendo os frutos de sua chatice crônica, em estado de penúria. Além de chato é caloteiro.

Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *