Luiz Gonzaga Jr., sem aplausos e sem bis

“De tanto andar na corda bamba sou equilibrista

e a platéia aplaudindo e pedindo bis.

Equilibrando a vida e a morte sou malabarista.

E a platéia aplaudindo e pedindo bis.”

A platéia não pôde aplaudir nem pedir bis: o malabarista Luiz Gonzaga Jr. não apareceu no palco. O show de lançamento de seu segundo disco já estava marcado (haveria uma única apresentação, no auditório do Tuca), os jornais publicavam anúncios e entrevistas com o compositor – mas ele não apareceu no palco. O show de apresentação no Rio, marcado para a mesma semana, também foi cancelado. Uma pequena nota no Globo explicava: Luiz Gonzaga Jr. estava doente.

O segundo disco do compositor, lançado pela Odeon em setembro (de 1974), continua nas lojas, sem poder contar com a promoção dos shows.

Esses contratempos não são novos na carreira de Luiz Gonzaga Jr. Ela começou em 1968, em festivais universitários (na época, ele fazia Economia no Rio), mas só no começo do ano passado (1973) Luiz Gonzaga Jr. sairia do círculo extremamente restrito do público universitário interessado em música brasileira séria. Foi quando ele gravou – aos 27 anos, cinco de carreira – um compacto simples na Odeon, com as músicas “Comportamento Geral” e “Um Sorriso nos lábios”.

Nessa época, ele foi ao programa de Flávio Cavalcanti cantar “Comportamento Geral”. O “júri” do programa, é claro, ficou indignado com a música – ou melhor, com a letra. (“Você deve rezar pelo bem do patrão/ E esquecer que está desempregado./ Você deve aprender a baixar a cabeça/ E dizer sempre muito obrigado./ São palavras que ainda te deixam dizer.”) Um dos “jurados”, o maestro Erlon Chaves, teria dito, segundo os jornais, que aquilo era um absurdo: numa época em que o País se desenvolvia vertiginosamente, e o governo construía a Transamazônica e a ponte Rio-Niterói, aquela música amarga e derrotista não tinha sentido.

Muita gente parece não ter concordado com os argumentos apresentados na televisão: nos dias seguintes – ainda segundo os jornais -, milhares de pessoas compraram o compacto, a música era ouvida nas rádios várias vezes por dia, e a Odeon, entusiasmada, resolveu programar o lançamento de um LP.

A festa durou pouco. Surgiu a notícia de que a música havia sido proibida. Na realidade, ela só seria realmente proibida alguns meses depois, quando saiu, afinal, o primeiro LP de Luiz Gonzaga Jr. “Comportamento Geral” estava no LP, sim, mas as rádios não podiam tocá-la, nem as lojas de disco, nem qualquer serviço de alto-falantes.

O primeiro LP tinha dez músicas. Mais de dez outras haviam sido proibidas. Hoje, aos 28 anos, formado em Economia mas sem exercer a profissão, Luiz Gonzaga Jr. diz que, para gravar dez músicas, tem que compor 35.

O problema não é só dele, é claro. Mas, em todo caso, em tempos assim talvez a saída mais fácil fosse fazer música fácil, falar de como é bom passar uma tarde em Itapoan, de como é triste viver longe dos olhos da amada, enquanto o violão tira a batida de um sambinha ameno, agradável, de digestão tranqüila.

Luiz Gonzaga Jr. é um dos raros artistas que até hoje não se renderam à saída mais fácil. As dez músicas de seu segundo LP são pesadas, sérias, amargas, violentas. A música está ainda mais despojada de artifícios do que no LP anterior. Os instrumentos se limitam ao que é essencial para conduzir – de uma forma apurada, lapidada – a linha melódica densa e inquietante. Evitando com rigor qualquer som supérfluo, Luiz Gonzaga Jr. arriscou-se a ser criticado como autor de músicas monótonas. Mas, evitando o supérfluo, conseguiu evitar qualquer possível cansaço do ouvinte. Na realidade, a cada nova audição, o disco se revela forte e belo como se estivesse sendo ouvido pela primeira vez.

O mesmo cuidado de artesão rigoroso dado às melodias e aos instrumentos é dispensado às palavras. Apesar de todos os contratempos que compositores, poetas, escritores e muitos outros têm que enfrentar ultimamente, os versos de Luiz Gonzaga Jr. não recorrem a malabarismos desnecessários para exprimir o sentido que o malabarista quer lhes dar. Os versos são claros, concisos, poderosos. Há metáforas, é claro. Mas as metáforas a que ele teve às vezes que recorrer conseguem ser objetivas sem ser imbecilmente óbvias.

É o caso, por exemplo, de “É preciso”, a primeira música do disco e certamente uma das belas. Como em algumas letras do primeiro disco, há um tom de confissão, de autobiografia, quando ele fala de Dina, a mãe adotiva que o criou no Rio, no bairro do Estácio. Mas esse tom de confissão não pode nunca ser confundido, por exemplo, com a desinteressante e monótona narração dos sonhos dos outros; é, pelo contrário, a transmissão de uma vivência pessoal que diz respeito a todos os que ouvem, a todos nós. (“Mas, mãe, não se zangue que as mãos eu não sujo, / Apenas eu quis conhecer a cidade, saber da alegria/ E da felicidade que vendem barato em qualquer quitanda./ Mas volto arrasado, tá tudo fechado, talvez haja falta,/ Não há no mercado, e hoje, ô Dina, nem é feriado.”)

Em “Galope”, ele cita versos de músicas de Luiz Gonzaga, o rei do baião. Mas não é apenas uma homenagem ao pai; é mais, é um poema feito de velhos versos conhecidos e permitidos, mas que aqui adquirem um sabor novo, uma força nova e uma violência que antes não existia: “Vamos mostrar pr’esses cabras como se dança um baião/ E quem quiser aprender é melhor prestar atenção./ Deixa essa criança chorar/ Que ela só vai parar quando essa fome passar./ E, doutor, uma esmola a um pobre que é são/ Ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão.”

A citação do pai não é a única do disco. Em “Amanhã ou depois”, Luiz Gonzaga Jr. cita Milton Nascimento, de quem sofreu uma influência decisiva na construção das melodias, e que como ele optou por uma música séria, que dá problemas justamente porque não tem nada de easy music: “Amanhã ou depois, meu irmão,/ A gente retorna à beira do cais/ E conta os amigos/ Pra ver qual que brilha/ E qual se apagou”.

Em “Uma família qualquer”, o compositor retoma o tipo de descrição seca, quase jornalística, de acontecimentos do dia a dia, que fizera em “Página treze”, do disco anterior: a família Silva sai “de qualquer interior” em busca da riqueza das cidades e agora “É mais uma família a serviço da graça e do humor/ Da cultura e do descanso/ Do telespectador”.

São poucos exemplos de várias surpresas fortes que há no disco. Apesar de todos os contratempos, Luiz Gonzaga Jr. conseguiu fazer um disco que não é apenas o melhor do que o anterior, mas um dos melhores da música brasileira dos últimos tempos. A nós, que apesar de tudo ainda aplaudimos e pedimos bis, resta imaginar como poderiam ter sido os discos que ele não conseguiu gravar com aquelas outras 25 músicas.

A historinha por trás do texto

Este texto foi publicado no Jornal do Objetivo, em 1974. Era o jornal laboratório mensal da Faculdade de Comunicação do Objetivo, ou Instituto Unificado Paulista, hoje Unip, a universidade criada por João Carlos Di Gênio. Foi a segunda faculdade que comunicação que tentei terminar – sem sucesso –, depois da ECA da USP e antes da Cásper Líbero.

Só para registrar – em minha defesa, em defesa do Jornal do Objetivo e da verdade dos fatos: em 1974, ainda sob a ditadura mais brava, ainda com censura, Gonzaguinha não tinha o respeito quase unânime que viria a ter mais tarde. Era chamado de cantor-rancor. Tenho um certo orgulho de ter escrito que seu segundo disco era “um dos melhores da música brasileira dos últimos tempos”.

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